quarta-feira, 12 de setembro de 2012

EVANGELHO DA SOMBRA E DO SILÊNCIO



O silêncio das coisa me comove;
Sinto-o, principalmente quando chove,

Que sonolência enerva as almas...
Que apatia...
Que saudade da vida e da alegria!

Que saudade de tudo que ama e existe!
Como me encanta a natureza triste!

Olho através dos vidros da janela:
A paisagem desfaz-se em fôlhas amarelas...

Ver árvores é um grande lenitivo
Para a estesia de um comtemplativo.

Ver árvores é ouvir sentidas trovas,
Vossas cantigas, raparigas novas!

Que lindo o verde, em nuanças meio incertas,
Margeando, lado a lado, as estradas desertas!

As árvores dos parques e das praças
Bebem silêncio pelas folhas que são taças...
Só parece que a sombra em redor se avoluma
E cresce e desenrola o amplo manto de bruma.

É tudo calma. Em torno à minha casa
Não se escuta sequer um ruflo de asas.

Sòmente a água que vem da montanha, sonora,
Canta tão triste que não canta, chora.

E some-se, rezando a estranha reza
Da livre religião da natureza,

Ave, sombra! Eu venero a tua imagem
E amo o silêncio verde da paisagem!...


Olegário Mariano,
in Toda uma vida de poesia

Nenhum comentário:

Postar um comentário