sábado, 27 de setembro de 2014

A MONTANHA




Calma, entre os ventos, em lufadas cheias
De um vago sussurrar de ladainha,
Sacerdotisa em prece, o vulto alteias
Do vale, quando a noite se avizinha:

Rezas sobre os desertos e as areias,
Sobre as florestas e a amplidão marinha;
E, ajoelhadas, rodeiam-te as aldeias,
Mudas servas aos pés de uma rainha.

Ardes, num holocausto de ternura...
E abres, piedosa, a solidão bravia
Para as águias e as nuvens, a colhe-las;

E invades, como um sonho, a imensa altura,
- Última a receber o adeus do dia,
Primeira a ter a bênção das estrelas!

Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)



O VALE



Sou como um vale, numa tarde fria,
Quando as almas dos sinos, de uma em uma,
No soluçoso adeus da ave-maria
Expiram longamente pela bruma.

É pobre a minha messe. É névoa e espuma
Toda a glória e o trabalho em que eu ardia...
Mas a resignação doura e perfuma
A tristeza do termo do meu dia.

Adormecendo, no meu sonho incerto
Tenho a ilusão do prêmio que ambiciono:
Cai o céu sobre mim em pirilampos...

E num recolhimento a Deus oferto
O cansado labor e o inquieto sono
Das minhas povoações e dos meus campos.


Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)


CICLO




Manhã. Sangue em delírio, verde gomo,
Promessa ardente, berço e liminar:
A árvore pulsa, no primeiro assomo
Da vida, inchando a seiva ao sol... Sonhar!

Dia. A flor, - o noivado e o beijo, como
Em perfumes um tálamo e um altar:
A árvore abre-se em riso, espera o pomo,
E canta à voz dos pássaros... Amar!

Tarde. Messe e esplendor, glória e tributo;
A árvore maternal levanta o fruto,
A hóstia da idéia em perfeição... Pensar!

Noite. Oh! saudade!... A dolorosa rama
Da árvore aflita pelo chão derrama
As folhas, como lágrimas... Lembrar!

Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)

HINO À TARDE




Glória jovem do sol no berço de ouro em chamas,
Alva! Natal da luz, primavera do dia,
Não te amo! Nem a ti, canícula bravia,
Que a ti mesma te estruis no fogo que derramas!

Amo-te, hora hesitante em que se preludia
O adágio vesperal, - tumba que te recamas
De luto e de esplendor, de crepes e auriflamas,
Moribunda que ris sobre a própria agonia!

Amo-te, ó tarde triste, ó tarde augusta, que, entre
Os primeiros clarões das estrelas, no ventre,
Sob os véus do mistério e da sombra orvalhada,

Trazes a palpitar, como um fruto do outono,
A noite, alma nutriz da volúpia e do sono,
Perpetuação da vida e iniciação do nada...


Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)

NO BANCO DE JARDIM





No Banco de jardim
o tempo se desfaz
e resta entre ruídos
a corola de paz.

No banco do jardim.
a sombra se adelgaça
e entre besouro e concha
de segredo, o anjo passa.

No banco de jardim,
o cosmo se resume
em serena parábola,
impressentido lume.


Carlos Drummond de Andrade
In 'Poesia Completa'

PROCURANDO ESTRELAS



Faz frio! vou em busca de agasalho, 
oh! lágrimas... (e luto por contê-las!) 
olhos abertos, procurando estrelas, 
sigo, e na estrada, minha mágoa espalho. 

As flores choram lágrimas de orvalho, 
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las, 
vejo toda a criação chorando pelas 
folhas a balançar em cada galho. 

Sigo tristonho... Baila pelo espaço 
o lamento das cousas que ficaram 
sem um amor, sequer, para entendê-las. 

Deixo um pouco de dor por onde passo... 
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram 
ante o esplendor do riso das estrelas!


Lago Burnett 
In Estrela do Céu Perdido, l949

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

MANHÃ




Fresca manhã da vida, recomeço
Doutros orvalhos onde o sol se molha.
Nova canção de amor e novo preço
Do ridente triunfo que nos olha.

Larga e límpida luz donde se vê
Tudo o que não dormiu e germinou;
Tudo o que até de noite luta e crê
Na força eterna que o semeou.

Um aceno de paz em cada flor;
Um convite de guerra em cada espinho;
E os louros do perfeito vencedor
À espera de quem passa no caminho.


Miguel Torga 
in ‘Libertação’

ENCONTRO



Quando o galo cantou na escuridão
Como um claro rumor que afasta o medo,
É que ele viu que chegara a ocasião
E que findara enfim o seu degredo.

Fosse qual fosse o dedo
Que lhe apontava a vida, era de mão
Que conhecia o mágico segredo
De negar e rasgar a solidão.

Mundo! - disse ele então, - Mundo de todos!
Mundo de estrelas, de ilusões, de lodos,
Onde nada é sozinho nem disperso:

Mundo! Sou eu aquela voz perdida,
Que vem juntar-se, arrependida,
Trazendo a humana gratidão de um verso.


Miguel Torga
in ‘Libertação’

RUMO



Rasga o pano da noite um grito agudo.
É o apelo de alguém.
Mas um aceno amargo não é tudo,
De mais a mais na bruma de onde vem.

Pode ser consciente, ou ser de quem
Sabe de gritos o que sabe um mudo.
Pode ser justo, e pode ser também
Vestido de injustiças de veludo.

Por isso, ninguém corre àquela voz.
A sua imprecisão passa veloz
Pelo caminho vago da ilusão.

Fogo que queima é fogo que se exprime.
O sentido do sangue é que redime
A angústia pendular do coração.


Miguel Torga 
in ‘Libertação’

DESTINO




Acordo com os pássaros cativos,
Com a ária da vida nos ouvidos,
acordo sem amarras nos sentidos,
Fiéis à sempiterna liberdade...
Nada pôde vencer a lealdade
que juraram à deusa aventureira.
Nem as grades do sono, nem a severidade
Da noite carcereira.

Acordo e recomeço
O canto interrompido:
O desvairado canto
Da ira irrequieta...
- O canto que o poeta
Se obrigou a cantar
Antes de ter nascido,
Antes de a sua angústia começar.


Miguel Torga

SINFONIA NATURAL




O sol se põe,
poesia.

A chuva cai,
canção.

O vento assobia,
música.

O mar sacode,
vibra.

A neve cai,
de mansinho,

silêncio.
O homem
AMA...


Delores Pires
In A Estrela e a Busca

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

SONETO V



Giram os girassóis no muro antigo
E há rubor de pitangas no quintal,
Um realejo toca um toque amigo
E a tarde agora é sino de cristal.
Sino chamando tranças e cirandas,
Risadas e pregões fora de moda,
E nuvens navegando a velas pandas,
E brisa a desfolhar canções de roda.
Ah tempos habitantes de saudade,
Horas que avós fiaram suavemente,
Vida que esconde-esconde uma cidade,
Surgindo da neblina de repente!
Caminham pela tarde os assombrados,
Esses velhos meninos naufragados!



Paulo Bomfim
in Súdito da Noite



terça-feira, 23 de setembro de 2014

TARDE DE PRIMAVERA




No céu da tarde - revoada de andorinhas.
De que sala do espaço vês
a primavera e o calor dos peitos brandos?
Canta o silêncio além do ouvido
uma nuvem perpassa tules
por entre pássaros.
O amor se lembra: beijos foram dados -
colar de pérolas desprendidas
nenhuma delas foi perdida
e um coração pulsou mais forte.
Revoada de andorinhas no céu da tarde
arde a nuvem agora e se transmuta
em canção: pássaros escutam
Voa coração, para a distância
e lembra ao distante
esta presença feita de vida e dança:
o que foi e o que é na mesma trança.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

LEGENDA DOS DIAS



O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...

As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada...

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia...

Raul de Leoni
(1895-1926)

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

'CREPÚSCULO'




Alada, corta o espaço uma estrela cadente. 
As folhas fremem. Sopra o vento. A sombra avança. 
Paira no ar um langor de mística esperança 
E de doçura triste, inexprimivelmente. 

À surdina da luz irrompe, de repente, 
O coro vesperal das cigarras. E mansa, 
E marmórea, no céu, curvo e claro, balança 
Entre nuvens de opala, a concha do crescente. 

Na alma, como na terra, a noite nasce. É quando, 
Da recôndita paz das horas esquecidas, 
Vão, ao luar da saudade, os sonhos acordando ... 

E, na torre do peito, em plácidas batidas,
Melancolicamente, o coração pulsando, 
Plange o réquiem de amor das ilusões perdidas. 


Martins Fontes
Verão (1917)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

MADRUGADA



Ainda há estrelas no céu, tremelicando, tontas,
e a manhã já vem vindo, indolente e indecisa,
até que o passaredo o concerto organiza
para esperar-te, ó sol, que dos longes despontas.

Um rego d'água corre e um vento brando alisa
as franças do capim ridente,em cujas pontas
o orvalho da manhã esplende como as contas
de explêndido cristal que o sol, beijando , irisa.

As aves cantam numa alegria incontida;
a terra cheia, ri-se o capinzal molhado;
e toda a natureza é um hálito de vida.

E de há muito que está o caboclo de pé,
olhando, preguiçoso, e no sonho abismado,
a fumaça a subir do rancho de sapé.


Gilberto M. Teles
Im Poesia Reunida

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A TARDE CAI LENTAMENTE



Como quem olha pela última vez o destino
das sombras, a tarde cai, lentamente,
retomando aromas e sons
que a claridade do dia preteriu.
É, então, que ressaltam as emoções,
desordenadamente guardadas no peito
e os pássaros voam, quase loucos,
à procura do sol.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

UM BRILHO QUASE FATIGADO



Anda uma claridade esquiva 
a rondar-nos a casa. 
De encontro às vidraças,
um brilho quase fatigado 
vai abrindo a noite 
à transparência do olhar.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

NOITE



Onde os vultos escurecem na exactidão do olhar 
desvanecendo a cor dos lírios 
começa o enigma da noite: 
sombra de uma sombra, 
esse outro modo de luz transfigurada.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013







SOMBRA



Vem, senhora das trevas 
trazer-nos os contornos da luz 
nos sulcos da noite 
para que a extrema alvura dos gladíolos
ponha em nossas mãos aquele brilho, 
quase divino, que só as sombras guardam 
na vertical alteração de cada hora.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013


O RIO



Onde estivermos, a madrugada
será íntima de veleiros
que transportam a voz do rio,
contemporânea de todos os silêncios.
Porém, não acredites na excessiva
vertigem da corrente.
Tanto azul, só pode ser a cor
dos pássaros marinhos,
improvisando a foz, tão devagar,
que o mar se agita rente aos ventos.

Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

FUGA



Era noite e o céu estava em mim.

Quando olhei para dentro de mim mesmo
-só vi o rasto de meu próprio espírito,
só ouvi o eco de meus passos perdidos. . .

Aonde fui que não me lembro?


Colombo de Sousa
In: Estágio 1964


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

BEBO SOZINHO AO LUAR



Bebo sozinho ao luar
Entre as flores há um jarro de vinho.
Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo.
Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua:
com ela e a minha sombra, já somos três pessoas.
Mas a lua não bebe, e a minha sombra imita o que faço.
A sombra e a lua, companheiras casuais,
divertem-se comigo, na primavera.
Quando canto, a lua vacila.
Quando danço, a minha sombra se agita em redor.
Antes de embriagados, todos se divertem juntos.
Depois, cada um vai para a sua casa.
Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis:
nossos encontros são na Via Láctea.."

Li Po
(Tradução de Cecília Meireles)



HINO À NOITE



Ó noite, eu te desejo, e anseio o teu abraço
macio como o luar, quieto como o jazigo.
A fadiga me esvai, domina-me o cansaço,
como um boêmio feliz eu vim dormir contigo.
De sonho em sonho andei.Fui poeta, fui mendigo.
Corri atrás do tempo e me perdi no espaço
e vi se desfazer meu pensamento antigo
e em sangue transformar-se a sombra do meu passo.
Um dia, a procurar-te, olhei para o poente:
na estrada solidão da tarde, impertinente,
um pássaro de sol crepusculava a esmo.
Então eu te encontrei e, em meu triste abandono,
meus olhos disfarcei na volúpia do sono
e caminhei cantigo em busca de mim mesmo.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos


REFÉM DA LUA



Sou refém da lua cheia
ela entra pelo quarto
conhece-me os desejos
os beijos guardados
as sombras e crateras do meu cativeiro
sou refém da meia lua
ela me sabe os pedaços
tristezas e segredos
invade-me à madrugada
assiste o amor arder
sem endereço
sou refém de mim
a lua é pretexto

Alice Ruiz

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

ANGÚSTIA


O sol se foi embora e a lagoa esquecida
se voltou para dentro de si mesma.

Colombo de Sousa
In: Estágio 1964

NOTURNO




Andam passos abolidos
pela amurada da lua.

Bóia o endereço no fundo
da alegoria – não eras;

nem os vasos esculpidos
com substância de lua.

Cancelo encontros com o mundo,
bóio em mim mesmo – não eras.


Colombo de Sousa
In: Estágio 1964

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

FANTASMAS




Lívidos fantasmas deslizam nas horas perdidas
Chegam à minha alma
E como sombras da noite
Levantam os meus ímpetos mortos
Desatando as ligaduras do tempo.
O luar da madrugada fria cai no meu rosto
E ilumina com branda amargura
O meu espírito que espera a hora insolúvel.
Os caminhos cobrem-se de homens que dormem na morte
E cresce no meu coração um desejo incontido
Para uma união mais forte, mais intensa e mais perfeita.
A minha pupila é banhada pela enorme lágrima
Que umedecerá o solo castigado.
A lágrima que levará ternura às existências sofridas,
A lágrima que se mudará em sangue,
Que levantará a vida morta do universo!


Adalgisa Nery 
in Cantos da Angústia

domingo, 17 de agosto de 2014

CANÇÃO



As horas dançam no tempo
e o tempo, na madrugada.

Do cimo da vida, apenas
vejo a poeira na estrada.

Meus rastros viraram pedras
na terra do antigamente.

E as horas morrem no tempo
como o tempo, no poente.


Gilberto Mendonça Teles
Planície “in” Hora Aberta

quarta-feira, 30 de julho de 2014

HAICAIS



Manhã de neblina.
Silhueta de pinheiro
em meio à paisagem.

Delores Pires,
In O Livro dos Haicais

quarta-feira, 23 de julho de 2014

CREPÚSCULO




O crepúsculo é uma tênue poeira de prata fosca,
o canto da cigarra, uma lâmina de ouro,
e as árvores são sombras expectantes
à beira do mar antigo
de cujo fundo horizonte vai surgir
como uma aparição
o veleiro que os homens sempre esperaram.


Tasso da Silveira
Canções a Curitiba
& outros poemas


EFEITOS DE LUZ




Sob o silêncio que flutua,
no crepúsculo,
a angra é um espelho de cristal.

De súbito, porém, rompendo a superfície polida,
como um brusco
reflexo,

o peixe prateado e liso
pula no ar
e, esplêndido, caracoleia no crepúsculo
e retomba no seio da água adormecida,

que sonhando, o supõe uma chispa de luar ...


Tasso da Silveira
in Poemas

terça-feira, 22 de julho de 2014

CARICATURA




A terra-mendiga escondeu-se num canto de 
sombra
para espiar,
através da janela da noite,
as estrelas dançando a sua prodigiosa dança lenta
no salão alto do Infinito.

Entre espelhos profundos, 
sobre veludos raros,
as estrelas dançam em êxtase.

E esqueceram-se de tudo
e embebedaram-se
do ritmo sereníssimo ...

E a Terra, despercebida e humilde,
tomou-se também
da encantada volúpia.

E arrepanhando o vestido roto de gaze que lhe deram,
e em que ainda brilham vidrilhos,
pôs-se a imitar, na sombra,
os movimentos harmoniosos
do bailado divino.


Tasso da Silveira
in Poemas

CONTEMPLAÇÃO



A Terra contempla as grandes árvores do crepúsculo
as grandes árvores nascidas do seu sonho
e cujas fundas raízes ainda se entranham
no seu coração doloroso.

A Terra contempla as grandes árvores imóveis
nostálgicas dos instantes de milagre
em que as gerou,
sentindo-as tão separadas,
tão mais prodigiosas, 
tão mais além dela mesma ...

A Terra contempla as grandes árvores imóveis
em cujas ramas, com o crepúsculo,
mansamente pousaram
todos os pássaros
do silêncio ...


Tasso da Silveira
Poemas

segunda-feira, 21 de julho de 2014

MANHÃ DE INVERNO




Coroada de névoas, surge a aurora 
Por detrás das montanhas do oriente; 
Vê-se um resto de sono e de preguiça, 
Nos olhos da fantástica indolente. 

Névoas enchem de um lado e de outro os morros 
Tristes como sinceras sepulturas, 
Essas que têm por simples ornamento 
Puras capelas, lágrimas mais puras. 

A custo rompe o sol; a custo invade 
O espaço todo branco; e a luz brilhante 
Fulge através do espesso nevoeiro, 
Como através de um véu fulge o diamante. 

Vento frio, mas brando, agita as folhas 
Das laranjeiras úmidas da chuva; 
Erma de flores, curva a planta o colo, 
E o chão recebe o pranto da viúva. 

Gelo não cobre o dorso das montanhas, 
Nem enche as folhas trêmulas a neve; 
Galhardo moço, o inverno deste clima 
Na verde palma a sua história escreve. 

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço 
As névoas da manhã; já pelos montes 
Vão subindo as que encheram todo o vale; 
Já se vão descobrindo os horizontes. 

Sobe de todo o pano; eis aparece 
Da natureza o esplêndido cenário; 
Tudo ali preparou co’os sábios olhos 
A suprema ciência do empresário. 

Canta a orquestra dos pássaros no mato 
A sinfonia alpestre, — a voz serena 
Acordo os ecos tímidos do vale; 
E a divina comédia invade a cena.

Machado de Assis,
in   'Falenas'


sábado, 19 de julho de 2014

A MONTANHA



A seda do céu começou a manchar-se de sombra,
e o cristal do ar sereno
embaciou-se de sombra
e com o silêncio profundo
a noite, imensa, desceu.

E junto a mim, sob o céu morto,
ficou apenas este vulto de montanha
enchendo o mundo ...


Tasso da Silveira
in Poemas

sexta-feira, 18 de julho de 2014

CIRANDA



Olho, da minha sombra,
a distância perdida,
e vejo,
desdobrando-se em curva larga e longa,
a alameda silente
das palmeiras erguidas na penumbra.

E vejo,
no céu sereno do crepúsculo cadente,
Vésper surgir tão próxima,
que a suponho uma lâmpada silente
trazida
por misteriosa mão compadecida
para clarear a minha sombra.

E eu vejo, de repente,
as palmeiras moverem-se, fantásticas,
em torno a Vésper, na alameda longa ...
... e dançarem, gloriosas, uma ronda
de ritmo e silêncio, na penumbra ...


Tasso da Silveira
in Poemas

segunda-feira, 14 de julho de 2014

NOTURNO URBANO



O cansaço anoitece
nas solidões aglomeradas.

Noite alta,
velam janelas,
semáforos insones.

Nem um trilar de grilo
estremece a teia do tédio


Helena Kolody
in Poesia Mínima

sexta-feira, 11 de julho de 2014

PÁSSARO SEM ASAS




Noites escuras,
fundas, fundas,
profundas.

A escuridão tem o encantamento
de aproximar ruídos longínquos
e aumentar os pequenos.

Choveu,
me encharco.

Minha memória 
recua,recua
até encontrar minha alma de menino.
(a escuridão 
se presta para isso.)

Sou um pássaro sem asas
e não caio
porque me seguro no ar.


Humberto Ak'abal, 
In Tecendor de Palavras

quinta-feira, 10 de julho de 2014

SUBITAMENTE




Subitamente, 
anoiteceu em mim.

Pungiu-me a dor de viver.

Helena Kolody
in Correnteza


terça-feira, 8 de julho de 2014

SEMPRE MADRUGADA



Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada.


Helena Kolody
in Correnteza

segunda-feira, 30 de junho de 2014

ESBOÇO




O seu perfil de sombra iluminado 
pela agonia rubra do sol-pôr; 
e, ao longe, e ao longe, o seu olhar magoado 
como um olhar de anunciação e amor...

O seu perfil de mágoa, ainda encoberto 
na sombra que este sonho fez maior, 
e o seu olhar sem fim, como um deserto 
de sombra, bem maior que a minha dor...

O seu perfil esguio, o seu perfil 
de Outono e primavera: - o mês de Abril, 
em Outubro, a querer reverdecer...

O seu perfil de noite e de alegria, 
laivado, aqui e além, da luz do dia, 
que no sol-pôr, além, vai a morrer...


Anrique Paço D’Arcos 
De Poesias Completas

TARDE DE INVERNO


Sob o curvo cristal da imensidade
De um céu de transparência etérea e fria,
Em que do posto sol a claridade,
Azul e melancólica, radia,

Vemos o bosque, o rio, a amenidade
Das sombras, a ondulada pradaria,
Como um painel de estranha suavidade
E encantadora e rústica poesia.

Olha como o formoso fruto loiro
Salpica de pequenos pontos de oiro
Aquela verdejante laranjeira!

E além, além, do céu no alaranjado
Fundo se esbate e avulta o recortado
E sombrio perfil da cordilheira...

- Júlia Cortines 
em "Versos". 



sexta-feira, 27 de junho de 2014

INVENÇÃO DA NOITE




Deste silencio e desta treva
construo a minha noite
particular e intransferível.
Não preciso inventar as estrelas,
elas nascem e brilham por si mesmas.
E à meia-noite uma lua triste
levanta a cara de prata no horizonte
e verte nos meus olhos um choro, um frio.

Anderson Braga Horta
In: Fragmentos da Paixão

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A LUA


 
A proa reta abre no oceano
Um tumulto de espumas pampas.
Delas nascer parece a esteira
Do luar sobre as águas mansas.
 
O mar jaz como um céu tombado.
Ora é o céu que é um mar, onde a lua,
A só, silente louca, emerge
Das ondas-nuvens, toda nua.
 
 
Manuel Bandeira
in Estrela da vida inteira.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

SONHOS NO CREPÚSCULO




Sonhos no crepúsculo,
Apenas sonhos encerrando o dia,
Retornando-o com tal desfecho,
Aos tons cinza, escurecidos,
Às coisas fundas e longínquas
Do território dos sonhos.

Sonhos, apenas sonhos no crepúsculo,
Apenas as rotas imagens lembradas
Dos tempos idos, quando o ocaso de cada dia
Escrevia em prantos as perdas da afeição.

Lágrimas e perdas e sonhos desfeitos
Talvez acolham teu coração
ao anoitecer.

Carl Sandburg
Tradução de Fernando Campanella

terça-feira, 24 de junho de 2014

DE TARDE



Eu vi voando caminho do Ocidente,
o bando ideal de minhas ilusões;
Do sol, um raio trêmulo, dormente,
dourava-as com seus últimos clarões.

Para longe corriam doidamente
a crença, o amor, meigas aspirações ...
Creio até, que entre as aves, tristemente,
iam partindo os nossos corações.

Alem, além ... e os pássaros risonhos,
foram-se todos. Vênus lacrimosa
brilhou. No mais, deserta a imensidade.

Não! No ocaso do sol e de meus sonhos,
ficou, ainda a pairar triste e formosa,
a ave formosa e triste da saudade.


Augusto de Lima
in Coletânea de Poesias

segunda-feira, 9 de junho de 2014

OS SENTIMENTOS QUE MAIS DOEM...



"Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem,
são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis,
precisamente porque são impossíveis, a saudade do que 
nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de 
não ser outro, a insatisfação da existência do mundo.
Todos estes meios tons da inconsciência da alma criam 
em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do
que somos..." 

Fernando Pessoa ,(Bernardo Soares)
in Livro do Desassossego
 




quinta-feira, 5 de junho de 2014

NÉVOA...



"Névoa... A manhã é névoa e o dia é este...
Que quero eu dele ou ele quer de mim?
Quero que a minha angústia nada ateste
De si, nem de quem quer um fim...

Quero que a manhã seja como é,
Porque o seria sem o eu querer;
E que eu tenha esse resto vil de fé
Que é ainda querer viver..."

Fernando Pessoa
in Poesia

terça-feira, 3 de junho de 2014

TODA A PAZ DA NATUREZA...



"...


Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.


Mas eu fico triste como um pôr do sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria o fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.


Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.


..."

Fernando Pessoa -
 Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos