segunda-feira, 30 de junho de 2014
ESBOÇO
O seu perfil de sombra iluminado
pela agonia rubra do sol-pôr;
e, ao longe, e ao longe, o seu olhar magoado
como um olhar de anunciação e amor...
O seu perfil de mágoa, ainda encoberto
na sombra que este sonho fez maior,
e o seu olhar sem fim, como um deserto
de sombra, bem maior que a minha dor...
O seu perfil esguio, o seu perfil
de Outono e primavera: - o mês de Abril,
em Outubro, a querer reverdecer...
O seu perfil de noite e de alegria,
laivado, aqui e além, da luz do dia,
que no sol-pôr, além, vai a morrer...
Anrique Paço D’Arcos
De Poesias Completas
TARDE DE INVERNO
Sob o curvo cristal da imensidade
De um céu de transparência etérea e fria,
Em que do posto sol a claridade,
Azul e melancólica, radia,
Vemos o bosque, o rio, a amenidade
Das sombras, a ondulada pradaria,
Como um painel de estranha suavidade
E encantadora e rústica poesia.
Olha como o formoso fruto loiro
Salpica de pequenos pontos de oiro
Aquela verdejante laranjeira!
E além, além, do céu no alaranjado
Fundo se esbate e avulta o recortado
E sombrio perfil da cordilheira...
- Júlia Cortines
em "Versos".
sexta-feira, 27 de junho de 2014
INVENÇÃO DA NOITE
Deste silencio e desta treva
construo a minha noite
particular e intransferível.
Não preciso inventar as estrelas,
elas nascem e brilham por si mesmas.
E à meia-noite uma lua triste
levanta a cara de prata no horizonte
e verte nos meus olhos um choro, um frio.
Anderson Braga Horta
In: Fragmentos da Paixão
quinta-feira, 26 de junho de 2014
A LUA
A proa reta abre no oceano
Um tumulto de espumas pampas.
Delas nascer parece a esteira
Do luar sobre as águas mansas.
O mar jaz como um céu tombado.
Ora é o céu que é um mar, onde a lua,
A só, silente louca, emerge
Das ondas-nuvens, toda nua.
Manuel Bandeira
in Estrela da vida inteira.
quarta-feira, 25 de junho de 2014
SONHOS NO CREPÚSCULO
Sonhos no crepúsculo,
Apenas sonhos encerrando o dia,
Retornando-o com tal desfecho,
Aos tons cinza, escurecidos,
Às coisas fundas e longínquas
Do território dos sonhos.
Sonhos, apenas sonhos no crepúsculo,
Apenas as rotas imagens lembradas
Dos tempos idos, quando o ocaso de cada dia
Escrevia em prantos as perdas da afeição.
Lágrimas e perdas e sonhos desfeitos
Talvez acolham teu coração
ao anoitecer.
Carl Sandburg
Tradução de Fernando Campanella
terça-feira, 24 de junho de 2014
DE TARDE
Eu vi voando caminho do Ocidente,
o bando ideal de minhas ilusões;
Do sol, um raio trêmulo, dormente,
dourava-as com seus últimos clarões.
Para longe corriam doidamente
a crença, o amor, meigas aspirações ...
Creio até, que entre as aves, tristemente,
iam partindo os nossos corações.
Alem, além ... e os pássaros risonhos,
foram-se todos. Vênus lacrimosa
brilhou. No mais, deserta a imensidade.
Não! No ocaso do sol e de meus sonhos,
ficou, ainda a pairar triste e formosa,
a ave formosa e triste da saudade.
Augusto de Lima
in Coletânea de Poesias
segunda-feira, 9 de junho de 2014
OS SENTIMENTOS QUE MAIS DOEM...
"Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem,
são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis,
precisamente porque são impossíveis, a saudade do que
nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de
não ser outro, a insatisfação da existência do mundo.
Todos estes meios tons da inconsciência da alma criam
em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do
que somos..."
Fernando Pessoa ,(Bernardo Soares)
in Livro do Desassossego
quinta-feira, 5 de junho de 2014
NÉVOA...
"Névoa... A manhã é névoa e o dia é este...
Que quero eu dele ou ele quer de mim?
Quero que a minha angústia nada ateste
De si, nem de quem quer um fim...
Quero que a manhã seja como é,
Porque o seria sem o eu querer;
E que eu tenha esse resto vil de fé
Que é ainda querer viver..."
Fernando Pessoa
in Poesia
terça-feira, 3 de junho de 2014
TODA A PAZ DA NATUREZA...
"...
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria o fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
..."
Fernando Pessoa -
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos
domingo, 1 de junho de 2014
A BALADA DAS FOLHAS
No crepúsculo de gaze
E ouro, anda alguém a cantar
Uma cantiga que é quase
Um choro humano, pelo ar...
Pensativo, os olhos ponho
Nas folhas, - vida que vai
A extinguir-se, sonho a sonho,
Em cada folha que cai...
A primeira é verde e é linda.
Porque o vento a desprendeu ?
Não tinha vivido ainda,
Não tinha amado e morreu.
Vento do Destino avança,
E num soluço, num ai,
Cai um mundo de esperança
Na folha humilde que cai.
A segunda é a folha morta,
Passado... Desilusão...
Mal o vento os ramos corta,
Ela adormece no chão...
É a saudade, - folha da alma –
Que no tormento se abstrai
E vive da morte calma
De cada sonho que cai.
OFERENDA:
No crepúsculo indeciso
Da vida, me martirizo
Por um sonho que se esvai...
Caem folhas... Chorei !...
Há uma lágrima, um sorriso...
Em cada folha que cai.
Olegário Mariano
in 'Poemas de amor e de saudade'
1.932.
sexta-feira, 30 de maio de 2014
HÁ CIDADES ACESAS NA DISTÂNCIA
Ha cidades acesas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.
Ha cidades acesas cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.
E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual e o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de nevoa e de não ser.
Sophia de Mello Breyner Andresen
in 'Poemas escolhidos' 2004
HORA LILÁS...
Hora lilás, da cor desta saudade
Que não me deixa mais o coração,
Hora em que a alma toda se me invade
Só de tristeza e de desolação ...
Hora em que eu lembro a minha pouca idade
E a minha tão cruel desilusão ...
Tudo se esvai na bruma da saudade,
Essa tão doce e triste cerração ...
Hora lias, da cor que me entristece,
Desta saudade que jamais esquece
Meu coração cansado de sofrer;
Hora em que eu vivo a vida já vivida,
Hora lilás, da cor da minha vida,
Pois é saudade só o meu viver.
Anrique Paço D’Arcos
in Poesias Completas
NÉVOA
Que densa névoa cobre a terra inteira!
Dir-se-ia que pousou na terra o próprio céu ...
E lembra um andorinha prisioneira
Dum condor que sobre ela as asas estendeu.
Moldados pela noite à sua negra imagem,
Cismam meus olhos fundos como um rio.
Tornam mais densa ao longe a noite da paisagem
Os montes dum perfil ascético e sombrio.
E esqueço-me a pensar se tudo o que me envolve,
As árvores, os montes e os rochedos,
Não é um sonho só que em névoa se dissolve,
Como ao quebrar da luz, sombras, noturnos medos.
Tão ausente me sinto, tão distante,
Que um sonho me parece a própria vida;
A névoa cresce, aumenta a cada instante ...
E a minha sombra jaz na sombra confundida ...
Anrique Paço D’Arcos
in Poesias Completas
CREPÚSCULO
Paisagem do meu sonho .. Que tristeza
Alonga para os céus os pinheirais!
Crescem na tarde sombras e incertezas,
Sobe da terra o fumo dos casais.
É a hora dolorida em que se reza,
Em que as almas e as cousas são iguais,
No longo adeus do sol à natureza,
Cheia de luto e misterioso ais.
Paisagem do meu sonho em que me abismo,
Olhos turvos de lágrimas, e cismo
Na dor de quanto vai perdido à sorte ...
É a hora dolorida da ansiedade,
Em que a vida se abraça à Eternidade
E o meu sentir se casa com a morte!
Anrique Paço D’Arcos
in Poesias Completas
quinta-feira, 29 de maio de 2014
A ESTRELA
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
Manuel Bandeira
in Estrela da vida inteira.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
UM ETERNO SOL-PÔR DO QUE SOMOS...
"Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem,
são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis,
precisamente porque são impossíveis, a saudade do que
nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de
não ser outro, a insatisfação da existência do mundo.
Todos estes meios tons da inconsciência da alma criam
em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do
que somos..."
Fernando Pessoa ,(Bernardo Soares)
in Livro do Desassossego
VOZES DO MAR
Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d"oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?…
Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?
Tens cantos d"epopeias?Tens anseios
D"amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!
Donde vem essa voz,ó mar amigo?…
… Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!
Florbela Espanca
In “Trocando olhares” (1916)
ALBA
Não faz mal
que amanheça devagar.
As flores não têm pressa,
nem os frutos.
Sabem
que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Não faz mal
que, devagar,
o dia vença a noite
em seus redutos
do Leste.
O que importa
é ter enxutos os olhos
e a intenção de madrugar.
Geir Campos
In Cantigas de Acordar Mulher (1964)
PENUMBRA
Tarde fria
Silêncio sepulcral
Olhos vermelhos
Na mente, temporal
Já não tenho lágrimas
De sobra, solidão
Já não sinto minha alma
Que ao meu lado, jaz no chão...
24/05/2009
19h 51min
Jefferson Dieckmann.
terça-feira, 27 de maio de 2014
O MAR DO CREPÚSCULO
Eis a terra que o crepúsculo banha,
Eis as orlas do Mar Amarelo;
Por onde se ergueu e aonde se abala,
São estes os ocidentais mistérios.
Noite após noite, seu tráfego purpúreo
Cargas de opala pelo cais dispersa;
E mercadores ponderam sobre horizontes,
Calculam rumos e somem em barcos de sortilégio.
Púrpura –
A cor das rainhas é esta –
A cor de um sol, no poente;
- Ainda, além dessa, o âmbar;
E o berilo – se o dia vai a meio.
Quando à noite, porém, amplidões de aurora
Atingem, de súbito, os homens –
Essa cor, e o feitiço, Mas, a Natureza
Reserva um lugar, também, para os cristais de iodo.
Emily Dickinson
in Poemas de Emily Dickinson
sábado, 24 de maio de 2014
SONATA AO CREPÚSCULO
Trompas do sol, borés do mar, tubas da mata,
Esfalfai-vos, rugindo, - e emudecei... Apenas,
Agora, trilem no ar, como em cristal e prata,
Rústicos tamborins e pastoris avenas.
Trescala o campo, e incensa o ocaso, numa oblata.
- Surgem da Idade de Ouro, em paisagens serenas,
Os deuses; Eros sonha; e, acordando à sonata,
Bailam rindo as sutis alípedes Camenas.
Depois, na sombra, à voz das cornamusas graves,
Termina a pastoral num lento epitalâmio...
Cala-se o vento... Expira a surdina das aves...
E a terra, noiva, a ansiar, no desejo que a enleva,
Cora e desmaia, ao seio aconchegando o flâmeo,
Entre o pudor da tarde e a tentação da treva.
Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)
segunda-feira, 19 de maio de 2014
EM VIAGEM
Arde a montanha
- brasa de ametista –
atravessada de sol
O grande crepúsculo
é um calmo incêndio
que se espalma
na redoma da tarde
Os laranjais
- surdo perfume –
se preparam
para acolher a noite
Hélio Pellegrino
In: Minérios Domados
sábado, 17 de maio de 2014
O CREPÚSCULO DA BELEZA
Vê-se no espelho; e vê, pela janela,
A dolorosa angústia vespertina:
Pálido, morre o sol... Mas, ai! termina
Outra tarde mais triste, dentro dela;
Outra queda mais funda lhe revela
O aço feroz, e o horror de outra ruína:
Rouba-lhe a idade, pérfida e assassina,
Mais do que a vida, o orgulho de ser bela!
Fios de prata... Rugas... O desgosto
Enche-as de sombras, como a sufoca-la
Numa noite que aí vem... E no seu rosto
Uma lágrima trêmula resvala,
Trêmula, a cintilar, - como, ao sol posto,
Uma primeira estrela em céu de opala...
Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)
A dolorosa angústia vespertina:
Pálido, morre o sol... Mas, ai! termina
Outra tarde mais triste, dentro dela;
Outra queda mais funda lhe revela
O aço feroz, e o horror de outra ruína:
Rouba-lhe a idade, pérfida e assassina,
Mais do que a vida, o orgulho de ser bela!
Fios de prata... Rugas... O desgosto
Enche-as de sombras, como a sufoca-la
Numa noite que aí vem... E no seu rosto
Uma lágrima trêmula resvala,
Trêmula, a cintilar, - como, ao sol posto,
Uma primeira estrela em céu de opala...
Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)
terça-feira, 22 de abril de 2014
CREPÚSCULO
-Estrelas não!
Pedaços de almas tristes
Que a noite acende pra enfeitar o céu.
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
domingo, 6 de abril de 2014
O CENTRO DA NOITE
Noite disforme.
Se olhares o céu, o que não vale a pena,
Verás que o brilho das estrelas é uma coisa inútil
E sentirás o frio da vida.
Dante Milano,
in Poesia e prosa
sábado, 8 de março de 2014
MARINA COLASANTI
" Diz a lenda que o poeta
Li Po
afogou-se na noite em que
embriagado
quis agarrar a lua
sobre o lago .
É lenda , bem se vê .
Pois a verdade é que
a Lua
teria seguido o poeta
a qualquer canto
se ele apenas a tivesse chamado ."
Marina Colasanti ,
in " Rota de Colisão "
A LUA
Lua mulher:
Há uma grande afinidade
Entre as musas a Virgem Maria e a lua
Talvez o demônio não tenha penetrado na lua
Talvez que a lua não seja tão bela
Como é vista da terra
Não é possível ser poeta sem a lua
A lua influi sobre a afetividade
Não é possível haver amor sem lua:
Sem a lua o mundo acabaria.
Que brancura de lua sobre a pedra.
Murilo Mendes
In Poesia Completa e Prosa
LUAR DE ABRIL
Branco luar de Abril, falena aurifulgente
que espalmas no infinito as asas ideais,
teu lívido fulgor revive-me na mente,
o tempo que passou e que não volta mais ...
Cismando à tua luz, calma e serenamente,
um dia longe ouvi sonoros madrigais ...
Então, eram minh’alma um lago transparente
refletindo o esplendor das plagas siderais.
Crisântemo do azul, inspiração do poeta,
contemplando-te assim, dentro da noite quieta,
o mago rouxinol do Sonho ouvi cantar:
De um momento feliz a gente não se esquece,
branco luar de Abril, a alma não envelhece
e dentro de minh’alma esplende outro luar.
Emiliana Delminda
in ‘Folhas Caídas’
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
ESTRANHAS AVENTURAS DA INFÂNCIA
Era um caminho tão pequenino
Que nem sabia aonde ia,
Por entre uns morros se perdia
Que ele pensava que eram montanhas...
Enquanto a tarde, lenta, caia,
Aflitamente o procuramos.
Sozinho assim, aonde iria?
Porém, deixamos para um outro dia...
Perdido e só, nós o deixamos!
E quando, enfim, ali voltamos
Já nada havia, só ervas mas...
Tão vasto e triste sentiste o mundo
Que te achegaste, desamparada...
E foi bem juntos que regressamos,
Ombro com ombro, a mão na mão,
Enquanto, lenta, caía a tarde
E nos espiava a bruxa negra...
E nos seguia a bruxa negra
Que hoje se chama Solidão!
Mario Quintana
In Baú de Espantos
APONTAMENTO
Ó noite, ó noite, ó noite!
Luar e primavera
e os telhados cobrindo
sonhos que a vida gera!
Subo por essas horas
solitária e sincera,
e encontro, exausta e pura,
minha alma que me espera.
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
domingo, 17 de novembro de 2013
ENQUANTO TUDO DORME.......
Enquanto tudo dorme, sento-me cheio de alegria
Sob a abóbada estrelada que as frontes alumia;
Perscruto se do alto vem um sinal rumoroso;
E a hora com sua asas docemente me brinda
Quando contemplo, comovido, a festa infinda
Que, de noite, ao mundo oferece o céu radioso!
Penso às vezes que estes sóis que resplandecem,
Na terra adormecida, só a minha a alma aquecem;
Que para os entender, só eu fui predestinado;
Que sou eu, sombra vã, obscura e taciturna,
O misterioso rei desta pompa nocturna;
Que só para mim o céu foi iluminado!
Novembro de 1829
Victor Hugo ,
in Poemas
(tradução de Maria Manuela Parreira da Silva)
A CADA UM
Amanhece.
O Sol come a neblina
e começa a pintar
caminhos,
árvores,
casinhas,
animais,
pessoas…
E a cada um
lhe põe sombra.
Humberto Ak’abal
In "Tecedor de palavras"
terça-feira, 12 de novembro de 2013
AURORA
O milagre da noite
se abrindo em manhã,
soltando o jorro preso
da luz,
soltando os pássaros,
as nuvens claras,
as cores todas
e o cheiro bom do café.
Roseana Murray,
in Poemas de céu
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
A TARDE CAI LENTAMENTE
Como quem olha pela última vez o destino
das sombras, a tarde cai, lentamente,
retomando aromas e sons
que a claridade do dia preteriu.
É, então, que ressaltam as emoções,
desordenadamente guardadas no peito
e os pássaros voam, quase loucos,
à procura do sol.
Graça Pires
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
O RIO
Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas.
Manuel Bandeira
In: "Estrela da vida inteira"
terça-feira, 5 de novembro de 2013
ESPECTROS
Nas noites tempestuosas, sobretudo
Quando lá fora o vendaval estronda
E do pélago iroso à voz hedionda
Os céus respondem e estremece tudo,
Do alfarrábio, que esta alma ávida sonda.
Erguendo o olhar; exausto a tanto estudo,
Vejo ante mim, pelo aposento mudo,
Passarem lentos, em morosa ronda,
Da lâmpada à inconstante claridade
(Que ao vento ora esmorece ora se aviva,
Em largas sombras e esplendor de sois),
Silenciosos fantasmas de outra idade,
À sugestão da noite rediviva
- Deuses, demônios, monstros, reis e heróis.
Cecília Meireles
In: Espectros (1919
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
AMARGO
Há um mar, o dos velames,
das praias ardendo em ouro.
Há outro mar, o mar noturno,
o das marés com a lua
a boiar no fundo
o mênstruo da madrugada.
E afinal o outro, o do amor amargo,
meu mar particular, o mais profundo,
com recifes sangrando, um mar sedento
e apunhalado.
Max Martins
De Anti-retrato (1960)
domingo, 3 de novembro de 2013
AS ÁRVORES
Na celagem vermelha, que se banha
Da rutilante imolação do dia,
As árvores, ao longe, na montanha,
Retorcem-se espectrais à ventania.
Árvores negras, que visão estranha
Vol aterra? que horror vos arrepia?
Que pesadelo os troncos vos assanha,
Descabelando a vossa ramaria?
Tendes alma também... Amais o seio
Da terra; mas sonhais, como sonhamos,
Bracejais, como nós, no mesmo anseio...
Infelizes, no píncaro do monte,
(Ah! não ter asas!...) estendeis os ramos
À esperança e ao mistério do horizonte...
Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)
POENTE
A hora é de cinza e de fogo.
Eu morro-a dentro de mim.
Deixemos a crença em rogo,
Saibamos sentir-nos Fim.
Não me toques, fales,olhes...
Distrai-te de eu 'star aqui
Eu quero que tu desfolhes
A minha ideia de ti...
Quero despir-me de ter-te,
Quero morrer-me de amar-te.
Tua presença converte
Meu esquecer-te em odiar-te.
Quero estar só nesta hora...
Sem Tragédia...Frente a frente
Com a minha alma que chora
Sob o céu indiferente,
Basta estar, sem que haja ao lado
Exterior da minha alma
Meu saber-te ali, iriado
De ti, mancha nesta calma
Ânsia de me não possuir,
De me não ter mais que meu,
De me deixar esvair
Pela indiferença do céu.
Fernando Pessoa
In Poesia
sábado, 26 de outubro de 2013
A PASSAGEM DAS HORAS
A passagem das horas
o perpassar dos dias
o lento fervilhar do tempo em seus artifícios
de claridade e penumbra
trazem-nos a este lugar preciso
de quietude
em ondulações do silêncio e apaziguamento.
É aqui
onde deveremos aprender
os festejos da luz
a sombra do pecado original
dos fascínios
pelo regresso urgente
a nossa casa.
Vieira Calado
em "As Noites e os Dias"
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
CREPÚSCULO
Tomba a névoa da tarde. O ar sereno enlanguesce.
Dilui-se a montanha. O poente morto é lindo!
Recolhido, o arvoredo é um êxtase, uma prece.
Tênue e trêmula poeira, a sombra vai caindo ...
Na distância imprecisa, a estrada desce ... desce ...
De onde a tristeza vem? Desmaia o azul infindo.
Mergulhada na sombra, a Montanha mais cresce.
O horizonte se apaga, entre a bruma, fugindo ...
Onde a turba febril das horas agitadas?
Houve um êxodo estanho ... As vivendas fechadas ...
Só, no jardim, soluça um repuxo sonoro ...
Morre, de todo, a luz ... O céu se distancia ...
O silêncio é maior .. A terra mais vazia ...
De onde veio a tristeza? A sombra aumenta ... E eu choro ...
Tasso da Silveira
in Poemas
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
SONHOS DA MENINA
A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?
Sonho
risonho:
O vento sozinho
no seu carrinho.
De que tamanho
seria o rebanho?
A vizinha
apanha
a sombrinha de teia de aranha...
Na lua há um ninho
de passarinho.
A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?
Cecília Meireles,
in Ou isto ou aquilo
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
SIM,VEM UM CANTO
SIM,VEM UM CANTO na noite.
Não lhe conheço a intenção.
Não sei que palavras são.
É um canto desligado
De tudo que o canto tem.
É algum canto de alguém.
Vem na noite independente
Do que diz bem ou mal.
Vem absurdo e natural.
Já não me lembro que penso.
Ouço: é um canto a pairar
Como o vento sobre o mar.
Fernando Pessoa
In Poesias Inéditas
terça-feira, 22 de outubro de 2013
TODOS OS DIAS
Todos os dias
nascem pequeninas nuvens,
róseas umas,
aniladas outras,
nacaradas espumas...
Todos os dias
nascem rosas,
também róseas
ou cor de chá, de veludo...
Todos os dias
nascem violetas,
as eleitas
dos pobres corações...
Todos os dias
nascem risos, canções...
Todos os dias
os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs...
Todos os dias
nascem novos dias,
nascem novas manhãs...
Saúl Dias
In ‘Essência’ (1973)
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
RUMO
Rasga o pano da noite um grito agudo.
É o apelo de alguém.
Mas um aceno amargo não é tudo,
De mais a mais na bruma de onde vem.
Pode ser consciente, ou ser de quem
Sabe de gritos o que sabe um mudo.
Pode ser justo, e pode ser também
Vestido de injustiças de veludo.
Por isso, ninguém corre àquela voz.
A sua imprecisão passa veloz
Pelo caminho vago da ilusão.
Fogo que queima é fogo que se exprime.
O sentido do sangue é que redime
A angústia pendular do coração.
Miguel Torga
in ‘Libertação’
UM RIO TE ESPERA
Estás só, e é de noite,
na cidade aberta ao vento leste.
Há muita coisa que não sabes
e é já tarde para perguntares.
Mas tu já tens palavras que te bastem,
as últimas,
pálidas, pesadas, ó abandonado.
Estás só
e ao teu encontro vem
a grande ponte sobre o rio.
Olhas a água onde passaram barcos,
escura, densa, rumorosa
de lírios ou pássaros nocturnos.
Por um momento esqueces
a cidade e o seu comércio de fantasmas,
a multidão atarefada em construir
pequenos ataúdes para o desejo,
a cidade onde cães devoram,
com extrema piedade,
crianças cintilantes
e despidas.
Olhas o rio
como se fora o leito
da tua infância:
lembras-te da madressilva
no muro do quintal,
dos medronhos que colhias
e deitavas fora,
dos amigos a quem mandavas
palavras inocentes
que regressavam a sangrar,
lembras-te da tua mãe
que te esperava
com os olhos molhados de alegria.
Olhas a água, a ponte,
os candeeiros,
e outra vez a água;
a água;
água ou bosque;
sombra pura
nos grandes dias de verão.
Estás só.
Desolado e só.
E é de noite.
Eugénio de Andrade
sábado, 19 de outubro de 2013
EPITÁFIO
Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu a luz ao dia
E apascentou a tarde
O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.
Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que
Possuiu a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.
VINÍCIUS DE MORAES
In Livro de Sonetos, 1967
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
19
Ah, esta Lua tão branca é a minha Lua de sempre.
Não é verdade que se tenham escoado os instantes inumeráveis.
Esta Lua alumia ainda a minha alma de menino,
e seu puro clarão escorre sobre as frescas madressilvas
da cerca de ripas do quintal antigo.
Esta Lua tão branca é a Lua do mundo imenso
em que não havia nem sofrimento nem tumulto.
Do mundo de silêncio infinito,
de cujo seio surdia o canto misterioso
do seres e dos destinos . . .
Tasso Da Silveira
In: Poemas De Antes
DO FUNDO DO CREPÚSCULO
Do fundo do crepúsculo,
O vento tombou como uma ave ferida
Sobre os tufos e as palmas verdes
do dormente jardim.
Bateu, raivoso, as possantes asas,
rodopiou exasperado
entre as frondes em pânico.
E miraculosamente recompondo
o perdido equilíbrio,
em brusco, violento arranco
ergueu voo outra vez para o espaço sem fim...
Tasso da Silveira
(Contemplação do Eterno, 1952)
O vento tombou como uma ave ferida
Sobre os tufos e as palmas verdes
do dormente jardim.
Bateu, raivoso, as possantes asas,
rodopiou exasperado
entre as frondes em pânico.
E miraculosamente recompondo
o perdido equilíbrio,
em brusco, violento arranco
ergueu voo outra vez para o espaço sem fim...
Tasso da Silveira
(Contemplação do Eterno, 1952)
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
UM MINUTO À NOITE
A cidade dorme
o sono da madrugada.
Nenhum ser vivo
àquela hora silente.
O mundo noturno
cala-se...
Bares cerrados.
Apenas luminárias
com propagandas
de refrigerantes
permanecem despertas,
exibindo letras vermelhas
e grandes.
A cidade está
só,
com os sentimentos
da noite.
Delores Pires
in A Estrela e a Busca
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