segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O ESPÍRITO DO OUTONO



Será
a embriaguez? O vento matinal
arrastando folhas
raparigas canções?
O sopro frio das estrelas?
Será a beleza,
o espírito do outono? Há um limite
para o homem, um limite
para suportar o peso do mundo.
Da beleza, da bárbara
orgulhosa beleza, quem sabe defender-se
sem medo do coração lhe rebentar?


Eugénio de Andrade,
In ‘O sal da língua 

MADRUGADA EM MEU JARDIM



Um divino clarão vem do nascente
E sobre o meu jardim calmo resvala!
Na graça deste quadro reluzente,
A aragem fria os meus rosais embala!

Tudo desperta misteriosamente!
E a luz cresce e se expande em doce escala,
Avivando o Iençol resplandescente
Da brancura dos lírios cor de opala!

E o sol, doirando as franjas do horizonte,
Celebra a missa do romper da aurora
Na doce Eucaristia do levante!

Da passarada escuta-se o clarim !
E a madrugada estende-se sonora,
Na aleluia de luz do meu jardim !

Jansen Filho

HÁ UM SUAVE SOM DE BORBOLETAS...



Há um suave som de borboletas
no pálido crepúsculo
há cores impensáveis se movendo
no horizonte
calam-se os passarinhos
e a quietude apressa a noite
que desce devagarinho

Mariza Alencastro

domingo, 21 de outubro de 2012

AMANHECER




Floresce, na orilha da campina,
esguio ipê
de copa metálica e esterlina.


Das mil corolas,
saem vespas, abelhas e besouros,
polvilhados de ouro,
a enxamear no leste, onde vão pousando
nas piritas que piscam nas ladeiras,
e no riso das acácias amarelas.


Dos charcos frios
sobem a caçá-los redes longas,
lentas e rasgadas de neblina.
Nuvem deslizam, despetaladas,
e altas, altas,
garças brancas planam.


Dançam fadas alvas,
cantam almas aladas,
na taça ampla,
na prata lavada,
na jarra clara da manhã...

João Guimarães Rosa
In Magma

A MONTANHA




Calma, entre os ventos, em lufadas cheias
De um vago sussurrar de ladainha,
Sacerdotisa em prece, o vulto alteias
Do vale, quando a noite se avizinha:

Rezas sobre os desertos e as areias,
Sobre as florestas e a amplidão marinha;
E, ajoelhadas, rodeiam-te as aldeias,
Mudas servas aos pés de uma rainha.

Ardes, num holocausto de ternura...
E abres, piedosa, a solidão bravia
Para as águias e as nuvens, a acolhê-las;

E invades, como um sonho, a imensa altura,
- Última a receber o adeus do dia,
Primeira a ter a bênção das estrelas!

Olavo Bilac
In ‘Tarde’


VIMOS A LUA



Vimos a LUA nascer, na tarde clara.
Orvalhavam diamantes, as tranças aéreas das ondas
e as janelas abriam-se para florestas cheias de cigarras.

Vimos também a nuvem nascer no fim do oeste.
Ninguém lhe dava importância.
Parece uma pessoa solta - diziam.
Uma flor desfolhada.

Vimos a lua nascer, na tarde clara.
Subia com seu diadema transparente,
vagarosa, suportando tanta glória.

Mas a nuvem pequena corria veloz pelo céu.
Reuniu exércitos de lã parda,
levantou por todos os lados o alvoroto da sombra.

Quando quisemos outra vez luar,
ouvimos a chuva precipitar-se nas vidraças,
e a floresta debater-se com o vento.

Por detrás das nuvens, porém,
sabíamos que durava, gloriosa e intacta, a Lua.

VIMOS A LUA

RUMOR



Acorda-me
um rumor de ave.
Talvez seja a tarde
a querer voar.

A levantar do chão
qualquer coisa que vive,
e é como um perdão
que não tive.

Talvez nada.
Ou só um olhar
que na tarde fechada
é ave.

Mas não pode voar.

Eugênio de Andrade

TARDE



A febre da tarde
Se chama tarde,
Velho sono arrancado,
Cedo demais para ser noite,
Sem outro nome, pois não há nome
De tarde além da tarde.

o amor tenta falar mas soa
Tão perto em seu próprio ouvido.
Os tic-tacs escutam
O que os tic-tacs retrucam.
A febre preenche onde gargantas se mostram,
Mas nesses horrores nada tenta engolir
Enquanto a sede persegue a tarde
Até o rouco pôr-do-sol.

O entardecer surge com bocas
Quando a tarde pode falar.
A ceia e a cama começam e terminam
E o amor obscurece o pensar.
Mais tardes dividem a noite,
Novo sono arrancado,
Suspensão desperta entre sonho e sonho ­
Nunca soubemos quanto.
O sol se atrasa por horas de logo e logo ­
Então chega a febre veloz chamada dia.
Mas a febre lenta se chama tarde.


Laura Riding
tradução: Rodrigo Garcia Lopes

sábado, 20 de outubro de 2012

AZUL-TARDE



Ó pura, maravilhosa visão
- quando entre púrpura e ouro,
grave e propício, vais baixando em paz,
resplandecente azul do céu da tarde!

Lembras um mar azul onde a fortuna
com a âncora se encerra
num bendito repouso.Cai do remo
a última gota de mágoa da terra.

Hermann Hesse
In Andares

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O SOL DE NOSSAS VIDAS



Cada minuto é apenas um momento musical,
sem memória.. E a saudade não vem de
longe, é como uma cor outonal na paisagem
e muda como um poente...Não há futuro.
Tudo é paisagem para os nossos olhos
calmos e líricos.
Sentimos a intimidade das coisas
impossíveis.

Cristovam Pavia

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

FIM DE JORNADA




Caminhar ao encontro da noite.
Como o camponês regressa ao lar.
Após um longo dia de verão.

Sem pressa ou cuidado.
Na tarde ouro e cinza.
Sozinho entre os campos lavrados.
E as colinas distantes.

Caminhar, ao encontro da noite.
Sem pressa ou cuidado.
A noite é somente uma pausa de sombra.
Entre um dia e outro dia.

Helena Kolody,
in Vida Breve

terça-feira, 16 de outubro de 2012

ROSA BRANCA AO CREPÚSCULO



 Inclinas triste o rosto
nas folhas, para a morte,
respiras luz fantástica
e emites sonhos pálidos.
Íntima como um canto,
à última luz flutua
no quarto, a tarde toda,
a doce fragrância tua.
No inefável se engaja
tua alma temerosa,
e vai rindo e morrendo
em meu peito, irmã rosa.

Hermann Hesse 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

EM LOUVOR AO FOGO




Um dia chega
de uma extrema doçura:
tudo arde.

Arde a luz
nos vidros da ternura.

As aves,
no branco
labirinto da cal.

As palavras ardem
e a púrpura das naves.

O vento,

onde tenho casa
à beira do outono.

O limoeiro, as colinas.

Tudo arde

Na extrema e lenta
doçura da tarde.


Eugénio de Andrade
in Obscuro Domínio

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

AMANHECER



Amanhecer: o mais antigo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer: ainda o mais novo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer e vida humana
se entrelaçam na mesma luz.

Carlos Drummond de Andrade
In Poesia Errante

MANHÃ




Altos os troncos, e no alto os cantos:
A hora da manhã, a nós nascida,
Cobre de verde e azul o gesto simples
Com que me dás, serena, a tua vida.

Confiança das mãos, dos olhos calmos,
Donde a sombra das mágoas e dos prantos
Como a noite do bosque se retira:
Altos os troncos, e no alto os cantos.

José Saramago
In Provavelmente Alegria

terça-feira, 9 de outubro de 2012

OS AMIGOS, AO ENTARDECER...



O tempo é breve e as afeições são poucas.
Os cabelos já tomam a cor das despedidas.
Tantas, as viagens! Quantas, as partidas
para as paixões, as festas e navegações?
Fraternas mãos vieram e me cobriram
com cálidos lençóis.
E preparei anzóis
para pescar os salmões do amanhecer.
Um dia, com os amigos, acendi fogueiras.
Deitamo-nos na relva, de alma ainda inteira.
Ou fomos olhar os trens
que vinham dos verões.
Vezes houve em que rimos, quase alucinados.
Nem vimos os exílios, demorados.
E estivemos unidos em nossos corações.


Artur Eduardo Benevides
In: Elegia Setenta e Outros Poemas

DESTINO



Ai!
Ser como as densas florestas escuras
Que tecem filigranas vegetais
E em segredo se adornam para a festa da luz.

Ser como as densas florestas sombrias,
Que um raio de sol jamais penetrou.


Helena Kolody
In Luz Infinita

domingo, 7 de outubro de 2012

SEM RETORNO



Nada se repete na travessia.
Longa despedida sem retorno.

Marcos de nunca mais
balizam o contínuo transformar-se.

Vivos desenhos de sombra
sublinham o passante
e se desvanecem
ao anoitecer.

Helena Kolody
in ‘Viagem no Espelho’

sábado, 6 de outubro de 2012

SONETO



Desponta a estrela d’alva, a noite morre.
Pulam no mato alígeros cantores,
E doce a brisa no arraial das flores
Lânguidas queixas murmurando corre.

Volúvel tribo a solidão percorre
Das borboletas de brilhantes cores;
Soluça o arroio; diz a rola amores
Nas verdes balsas donde o orvalho escorre.

Tudo é luz e esplendor; tudo se esfuma
Às carícias da aurora, ao céu risonho,
Ao flóreo bafo que o sertão perfuma!

Porém minh’alma triste e sem um sonho
Repete olhando o prado, o rio, a espuma:
- Oh! mundo encantador, tu és medonho!

Fagundes Varela
In ‘Vozes da América

À HORA CINZENTA



Desce um longo poente de elegia
Sobre as mansas paisagens resignadas;
Uma humaníssima melancolia
Embalsama as distancias desoladas. . .

Longe, num sino antigo, a Ave-Maria
Abençoa a alma ingênua das estradas;
Andam surdinas de anjos e de fadas,
Na penumbra nostálgica, macia. . .

Espiritualidades comoventes
Sobem da terra triste, em reticência
Pela tarde sonâmbula, imprecisa. . .

Os sentidos se esfumam, a alma é essência
E entre fugas de sombras transcendentes,
O Pensamento se volatiliza. . .


Raul de Leoni
In: Luz Mediterrânea

PARA MIM MESMA



Para os meus olhos, quando chorarem,
Terem belezas mansas de brumas,
Que na penumbra se evaporarem...

Para os meus olhos, quando chorarem,
Terem doçuras de auras e plumas...

E as noites mudas de desencanto
Se constelarem, se iluminarem
Com os astros mortos que vêm no pranto...

As noites mudas de desencanto...
Para os meus olhos, quando chorarem...

Para os meus olhos, quando chorarem,
Terem divinas solicitudes
Pelos que mais os sacrificarem...

Para os meus olhos, quando chorarem,
Verterem flores sobre os paludes...

Para que os olhos dos pecadores
Que os humilharem, que os maltratarem,
Tenham carinhos consoladores.

Se, em qualquer noite de ânsias e dores,
Os olhos tristes dos pecadores
Para os meus olhos se levantarem...


Cecília Meireles

In: Baladas para El-Rei

HÁ UM INSTANTE...



Há um instante em que a memória é estreita
para conter o mar, o sal, os navios,
a penumbra branca das gaivotas.

Um instante de nudez perfeita.


Albano Martins
in 'Em tempo e memória'

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

DESPEDIDAS


Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.

Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas

Nada mais é gratuito, tudo é ritual.
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.

A.Romano de Sant'Anna
In Epitáfio para o Séc.XX

ENTARDECER NA PRAIA DA LUZ



Espreguiçados, os ramos
das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
das buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita.


ALBANO MARTINS,
in "Castália e Outros Poemas

AGORA...



Agora é a linha do horizonte
que me chama. Árvores quase, invisíveis
no verde azulado.
Segue o passo
vozes vagas da distância,
nada o detém. É a hora de dar-se calma
e sem perguntas à enigmática vida.
Minha ou de quem?
Outra voz indaga
e nada lhe responde.
Ressoa o passo
acolhe-o a senda desatenta
que não sei, jamais saberei

Dora Ferreira da Silva,
in Cartografia do Imaginário (poemas)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

SILÊNCIOS



Pelo pranto das auroras ,
pelo sangue das amoras;

pelos trevos dos caminhos,
pela ponta dos espinhos;

pelo leite das figueiras,
pelo limo das pedreiras;

pelo remanso do rio,
pela luz do sol do estio;

por tudo quanto é alegria,
tudo o que é melancolia;

pelo encanto do meu verso,
pelas glórias do Universo,

não quebres minha tristeza,
não quebre os silêncios meus,
que os silêncios têm beleza
e têm a graça de Deus.

Antonieta Borges Alves
In Lírios de Pedra

terça-feira, 2 de outubro de 2012

AO SOL




Naufragas na noite
em pompas de luz e imensidade
todo germe palpita na semente
e da nova manhã ressurges
clara divindade
nua a carnação sob o manto escarlate.


Dora Ferreira da Silva,
in Poesia Reunida

MANHÃ I



Esqueço os hieróglifos da alma
há campânulas azuis, ânforas, pássaros
há campos a percorrer.
Esqueço a noite, o sarcófago
beijo os flancos do sol
as colinas, o rio.
Venho de nossos, a de perfil marítimo
e enlaço-te na Etrúria
nu e solar
em teu cavalo alado.


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida

MANHÃ II



No engaste vegetal
pálida ametista.
Tombam do sol pétalas de sombra
setas de luz arisca.
Sob o céu de puras águas
unem-se as bocas na polpa do mesmo fruto.
Terra nos braços, no sangue fascinado,
terra nos ossos claros.
Nós: filhos do vento, coroados de ervas rudes,
ânforas, lutróforas dos que morreram puros.
No espelho do lago semeado de folhas
ondulam os corpos entre hastes de trigo.


Dora Ferreira da Silva,
in Poesia Reunida 

VESPERAL



Hora de benção, de perdão, de prece...
E que, no entanto, é das que mais afligem...
Entardecer... O azul empalidece
como um rosto na agônica vertigem ...

Em breve a noite vai colher a messe
das estrelas ... E da cerúlea origem
a alma do vago sobre as almas desce
e as saudades para elas se dirigem ...

Morreu da luz o fulgurante império ...
O poente, como as ilusões perdidas,
os nossos sonhos vãos, se fez cinéreo ...

E sobre tantas ruínas, quando enoite,
virão chorar, nas horas esquecidas,
as cristalinas lágrimas da noite ...


José Lannes
in Candeia

CANTO DA MADRUGADA



Avancei pela noite.
Abri os braços e recebi a aurora pequenina.
Chorava ainda. Suas lágrimas desceram sobre meu rosto.
Veio um perfume forte de flores molhadas,
Renovaram-se as vozes dos galos pelas campinas úmidas.
Lenhadores dormem nos casebres frios.
Estão nascendo flores misteriosas
Estão crescendo grandes almas nas sombras da noite.
Porque há um canto que sai da noite 
e vem acordar a aurora adormecida!

Augusto Frederico Schmidt
In Um século de poesia

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

MATINAL



Na bruma do cenário matutino,
O coração virente da floresta
Lembra um antigo templo bizantino,
Uma sonora catedral em festa

Agora, o bando de sabiás se apresta
Para cantar, solenemente, um hino.
E, do turíbulo das flores, lesta,
A brisa faz subir o incenso fino.

A cerimônia excelsa tem início.
Reconcentrada em prece emocionante,
A mata imensa fica silenciosa.

O próprio Deus celebra o sacrifício
E ergue no céu, num símbolo brilhante,
A hóstia do sol, serena e esplendorosa.

Helena Kolody ,
in Viagem no Espelho

LUZ E SOMBRA




Luz e sombra
lutam n'alma.

Só depois do sol ausente,
impera a noite.

Derrotadas
terra e treva,
reina a luz eternamente.

Helena Kolody

ENTARDECER



Um marco de melancolia
na aridez das escarpas,
debruçadas no ocidente
e um marulhar de lembranças
nos grotões da saudade.

Helena Kolody
in Viagem no ESpelho   

PENUMBRA



Já se aprofundam as raízes
no repouso do silêncio.
Cresce o musgo nas fundas cicatrizes.
Levita a fronde.
Na penumbra dos ramos,
tímido pássaro
inicia um canto de eternidade.

Helena Kolody ,
in Viagem no Espelho

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

VIAGEM NAS CORES



Penetraremos no azul e no vermelho.
Mais que a abelha na flor,
nossos olhos viajarão pelos reinos das cores:
nesses campos e oceanos de safira e rubi.

Conheceremos a surda profundidade,
o peso do brilho, da luz contidos no vermelho e no azul.
É outro mundo, de outubro sol, com densidades de água e veludo.
Iremos, de horizonte em horizonte,
Iremos pelo sufocado fogo dos cintilantes tapetes.

(Quando nossos olhos voltarem, seremos, no cotidiano crepúsculo,
como pássaros e sereias
orvalhos de estrelas e ondas
e caídos na areia fosca.)


Cecília Meireles
In: Poesia Completa

ANUNCIAÇÃO



Toca essa música de seda, frouxa e trêmula,
que apenas embala a noite e balança as estrelas noutro mar.

Do fundo da escuridão nascem vagos navios de ouro,
com as mãos de esquecidos corpos quase desmanchados no vento.

E o vento bate nas cordas, e estremecem as velas opacas,
e a água derrete um brilho fino, que em si mesmo logo se perde.

Toca essa música de seda, entre areias e nuvens e espumas.

Os remos pararão no meio da onda, entre os peixes suspensos;
e as cordas partidas andarão pelos ares dançando à toa.

Cessará essa música de sombra, que apenas indica valores de ar.
Não haverá mais nossa vida, talvez não haja nem o pó que fomos.

E a memória de tudo desmanchará suas dunas desertas,
e em navios novos homens eternos navegarão.

Cecília Meireles,
in Viagem

AINDA AGORA É MANHÃ



Ainda agora é manhã, e já os ventos
Adormecem no céu. Pouco a pouco,
A névoa antiga e baça se levanta.
Ruivamente, o sol abre uma estrada
Na prata nublada destas águas.
É manhã, meu amor, a noite foge,
E no mel dos teus olhos escurece
O amargo das sombras e das mágoas.

José Saramago
In Provavelmente Alegria

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

AQUI TERMINA O CAMINHO



Os sinos cantando, as sombras, todas se diluindo
dentro da tarde. Dentro da tarde, o teu grave pensamento de exílio.
Por que ainda esperas? Aqui termina o caminho,
aqui morre a voz, e não há mais eco nem nada.

Por que não esquecer, agora, as imagens que tanto nos perturbaram
e que inutilmente nos conduziram
para nos deixar, de súbito, na primeira esquina?
Essa voz que vem, não sei de onde,
esses olhos que olham, não sei o quê,
esses braços que se estendem, não sei pra onde...

Debalde esperarás que o eco de teus passos acorde os espaços que já não tem voz.

As almas já desertaram daqui.
E nenhum milagre de espera,
nenhum.

Emilio Moura,
in Permanência da poesia

terça-feira, 25 de setembro de 2012

OUVINDO O PÁSSARO



Às vezes, um pássaro parece cantar
para si próprio. Está na árvore, quando
o dia nasce, e a luz encontra-o
no meio da sombra. «Que manhã é esta,
pensa, em que o sol vem ter comigo
como se não houvesse mais ninguém
para o receber?» E saúda-o
com o seu canto, sem saber que
alguém o ouve, por trás dos arbustos,
e recolhe o que ele diz
para o dizer ao mundo.


Nuno Júdice

CREPUSCULAR



A incerteza cai com a tarde
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco de ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.

Nuno Júdice

O MOMENTO DIVINO




Quando o crepúsculo caiu,
foi que notaste como as coisas todas são infinitas...

Quando o silêncio te envolveu,
foi que sentiste as pulsações mais profundas do teu ser...
ser, aquilo que está dentro da casca, na interioridade.

E então sonhaste
que o sangue te batia nas artérias
ainda sob o impulso primordial
do Instante da criação...

E que o teu peito ofegava
ainda sob cansaço
das migrações dos povos ancestrais...

E te pareceu que chegavas do fundo dos tempos
como um esclarão das gerações inumeráveis,
que viesse explorando a estrada indefinida,
e ao fim da caminhada
trouxesse ainda nos olhos
a mesma interrogação ansiada
da partida...

E te pareceu que respiravas
ao ritmo das marés montantes e vasantes
ao ritmo das montanhas,
ao ritmo do arfar da Terra toda,
quando mais pesa sobre ela, pela noite,
a mudez do infinito ardendo de astros!...

Tasso da Silveira

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

MANOEL DE BARROS


“Senhor, ajudai-nos a construir a nossa 
casa com janelas de aurora e árvores no 
quintal.Árvores que na primavera fiquem
cobertas de flores e ao crepúsculo fiquem
cinzentas como a roupa dos pescadores.”

Manoel de Barros

AQUELA TRISTE E LEDA MADRUGADA



Aquela triste e leda madrugada, 
Cheia toda de mágoa e de piedade, 
Enquanto houver no mundo saudade 
Quero que seja sempre celebrada. 

Ela só quando, amena e marchetada, 
Saía, dando ao mundo claridade, 
Viu apartar-se d’ua outra vontade, 
Que nunca poderá ver-se apartada. 

Ela só viu as lágrimas em fio, 
Que duns e doutros olhos derivadas, 
S’acrescentaram em grande e largo rio; 

Ela viu as palavras magoadas, 
Que puderam tornar o fogo frio 
E dar descanso às almas condenadas.

Luis Vaz de Camões

PARA UMAS NOITES QUE ANDAM FAZENDO



" deixa eu abrir a porta
quero ver se a noite vai bem

quem sabe a lua lua 
ou nos sonhos crianças
sombras murmuram amém

deixa ver quem some antes
a nuvem a estrela ou ninguém "


Paulo Leminski





SOLIDÃO



O espirito da tempestade que executa a minha palavra
Partiu 
E minha forma assim abandonada
Caiu.
Vieram depois a aflição e a agonia
E cresceram em mim
Como a aurora e o dia.
E se eu quisesse contar, homens irmãos,
Desde quando meu coração está isento de alegria,
Acreditem,
Não poderia.
Há muitos séculos mora em mim
Uma noite muito escura, muito fria 


Adalgisa Nery
In: Mundos Oscilantes

domingo, 23 de setembro de 2012

UM POEMA QUE LI OUTRORA



A madrugada, fresca e linda,
rompendo as trevas, encontrou
a Natureza adormecida ainda.

Súbito, uma ave, num pipilo
límpido e claro, despertou
a árvore enorme que lhe dera asilo...

E a árvore, comovida,
transmitiu à floresta secular
o doce frêmito de vida.

E floresta levou-o ao céu distante,
e o céu mandou-o ao mar...

E, assim, no deslumbramento desse instante,
toda a Terra, a florir, pôs-se a cantar!...


Tasso da Silveira
in Poemas

PLENITUDE



A pedra, o vento, a luz alteada, 
o salso mar eterno, o grito 
do mergulhão, sob o infinito 
azul: 

— Deus não me deve nada. 


Hélio Pellegrino

FIM DE OUTONO



Fim de outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

Tudo seco pelas hortas,
Grandes lágrimas no chão
Nem uma flor pelos montes,
Tudo numa quietação
Soluça numa oração
O triste cantar das fontes.

Fim de outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...
A terra fechou as portas
Aos beijos do sol ardente,
E agora está na agonia...
Valha à terra agonizante
A Santa Virgem Maria!

Fim de Outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

Fernanda de Castro

SUAVE É A TARDE



Nesga de nuvem
Bem leve, leve
Formato breve
Paira no ar

Por trás o sol
Poente, belo
Sem um anelo
Morre no mar

Suave é a tarde
Cheirosa a brisa
Macia, a relva
Me faz sonhar.

José Magno