sábado, 4 de outubro de 2014

EVOLUÇÃO




Todas as noites o sono nos atira da beira de um cais
e ficamos repousando no fundo do mar.
O mar onde tudo recomeça...
Onde tudo se refaz...
Até que, um dia, criaremos asas.
E andaremos no ar como se anda em terra.

Mário Quintana
in Esconderijos do tempo




O SONO




O sono é uma viagem noturna.
O corpo – horizontal – no escuro
E no silêncio do trem avança.
Imperceptivelmente
Avança. Apenas
O relógio picota a passagem do trem.
Sonha a alma deitada em seu ataúde:
Lá longe
Lá fora
(Ela sabe!)
Lá no fundo do túnel
Há uma estação de chegada
- anunciam-na os galos, agora – 
Com a sua tabuleta ainda toda úmida de orvalho,
Há uma estação chamada
AURORA.

Mario Quintana
in: Preparativos de Viagem

A LUA DE BABILÔNIA



Numa esquina do Labirinto
às vezes
avista-se a Lua.
“Não! como é possível uma lua subterrânea?”

(Mas cada um diz baixinho:
Deus te abençoe, visão...)

Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo

LUNAR



As casas cerraram seus milhares de pálpebras.
As ruas pouco a pouco deixaram de andar.
Só a lua multiplicou-se em todos os poços e poças.
Tudo está sob a encantação lunar...

E que importa se uns nossos artefactos
lá conseguiram afinal chegar?
Fiquem armando os sábios seus bodoques:
a própria lua tem sua usina de luar ...

E mesmo o cão que está ladrando agora
é mais humano do que todas as máquinas.
Sinto-me artificial com esta esferográfica.

Não tanto...Alguém me há de ler com um meio sorriso
cúmplice... Deixo pena e papel...E, num feitiço antigo,
à luz da lua inteiramente me luarizo...

Mario Quintana
In 'Apontamentos de História Sobrenatural'

CANÇÃO DA NOITE ALTA



Menina está dormindo.
Coração bolindo.
Mãe, por que não fechaste a janela?
É tarde, agora:
Pé ante pé
Vem vindo
O Cavaleiro do Luar.
Na sua fronte de prata
A lua se retrata.
No seu peito
Bate um coração perfeito.
No seu coração
Dorme um leão,
Dorme um leão com uma rosa na boca.
E o príncipe ergue o punhal no ar:
. . . um grito
aflito. . .
Louca!

Mário Quintana
In: Canções


VERSO AVULSO




O luar é a luz do sol que está dormindo... 

Mario Quintana;
Da preguiça como método de trabalho, 1987

NOTURNO III



Um cartaz luminoso ri no ar
E mais outro... e mais!... Ó Noite, ó minha nega
Toda acesa
De letreiros,
Já pensaste como ainda serias mais linda
Muito mais
Se nós, os poetas, não soubéssemos ler?

Mario Quintana
In Baú de Espantos




sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ROMANTISMO




Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pousá-lo no vento!...

Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível -
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de lágrimas e luar!

Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormente e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado...

Quem tivesse um amor, sem dúvida nem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria...
Ah! Quem tivesse... (Mas quem tem? Quem teria?)


Cecília Meireles
in Mar Absoluto e outros poemas

SE UM PÁSSARO CANTAR...




Se um pássaro cantar dentro da noite
extraviado,
pensa com ternura nessa vida aérea,
sem alfabeto nem calendário,
tão pura, tão pura,
entre flores e estrelas,
sem data de nascimento,
sem nítida família,
e sem noção da morte.
Como os meninos que as mães deixaram,
Abandonados
Longe, na calçada dos séculos,
à porta de um pai improvável
e que choraram sem socorro.


Cecilia Meireles
in" Metal Rosicler"


ORAÇÃO DA NOITE



Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,
No infecundo amargor da solitude:
As dores, - embalei-as nos meus braços,
Como alguém que embalasse a juventude...

Acendi luzes, desdobrando espaços,
Aos olhos sem bondade ou sem virtude;
Consolei mágoas, tédios e fracassos
E fiz, a todos, todo o bem que pude!

Que o sonho deite bênçãos de ramagens
E névoas soltas de distância e ausência
Na minha alma, que nunca foi feliz.

Escondendo-me as tácitas voragens
De males que me deram, sem consciência.
Pelos míseros bens que sempre fiz!... 


Cecília Meireles,
in Nunca Mais e Poemas dos Poemas


RENÚNCIA




Rama das minhas árvores altas,
deixa ir a flor! que o tempo, ao desprendê-la,
roda-a no molde de noites e de albas
onde gira e suspira cada estrela.

Deixa ir a flor! deixa-a ser asa, espaço,
ritmo, desenho, música absoluta,
dando e recuperando o corpo esparso
que, indo e vindo, se observa, e ordena, e escuta.

Falo-te, por saber o que é perder-se.
Conheço o coração da primavera.
e o dom secreto do seu sangue verde,
que num breve perfume existe e espera.

Verti para infinitos desamparos
tudo que tive no meu pensamento.
Era a flor dos instantes amargos.
Por onde anda? No abismo. Dada ao vento...


Cecília Meireles
In Viagem, 1.938

TRANSIÇÃO




O amanhecer e o anoitecer
parece deixarem-me intacta.
Mas os meus olhos estão vendo
o que há de mim, de mesma e exata.

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo a cada instante,
outra imagem se despedaça.

Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.

Ninguém distingue a leve sombra
que o autêntico desenho mata.
E para os outros vou ficando
a mesma, continuada e exata.

(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas.
e pelas mil que vão chegando,
noite e dia... -- não consentidas.
mas recebidas e esperadas!)

Cecília Meireles
In Mar absoluto – 1945-

A MULHER E A TARDE




O denso lago e a terra de ouro:
até hoje penso nessa luz vermelha
envolvendo a tarde de um lado e de outro.

E nas verdes ramas, com chuvas guardadas,
e em nuvens beijando os azuis e os roxos.

Até hoje penso nas rosas de areia,
nos ventos de vidro, nos ventos de prata,
cheios de um perfume quase doloroso.

Perguntava a sombra: " Que há pelo teu rosto?"
"que há pelos teus olhos?" - a água perguntava.

E eu pisando a estrada, e eu pisando a estrada,
vendo o lago denso, vendo a terra de ouro,
com pingos de chuva numa luz vermelha...

E eu não respondendo nada.
Sonho muito, falo pouco.

Tudo são risos de louco
e estrelas da madrugada...

Cecília Meireles
In "Vaga Música"

ANOITECER




Ao longo do bazar brilham pequenas luzes.
A roda do último carro faz a sua última volta.
Os búfalos entram pela sombra da noite,
onde se dispersam.

As crianças fecham os olhos sedosos.
As cabanas são como pessoas muito antigas,
sentadas, pensando.

Uma pequena música toca no fim do mundo.

Uma pequena lua desenha-se no alto do céu.

Uma pequena brisa cálida
flutua sobre a árvore da aldeia
como o sonho de um pássaro.

Oh, eu queria ficar aqui,
pequenina.

Cecília Meireles,
in Poemas escritos na Índia


PEQUENA CANÇÃO



Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?

Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...

Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!

CECÍLIA MEIRELES
In: Vaga Música




A LUA




Mesmo se eu disser que a lua
é uma porta de diamante,
ninguém verá como eu vejo
este próximo esplendor
até o distante horizonte.

Por essas escadas brancas
de luz, entre o céu e a terra,
descem límpidos os que adoro,
desconhecidos e amigos,
pessoas de outros lugares,
de outros séculos: e logo
nítidos nos reconhecemos,

e no chão do luar, secreto,
inverossímil e exato,
continuamos a conversa
por mortes interrompida.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa


APONTAMENTO



Ó noite, ó noite, ó noite!
Luar e primavera
e os telhados cobrindo
sonhos que a vida gera!


Subo por essas horas
solitária e sincera, 
e encontro, exausta e pura, 
minha alma que me espera. 


Cecília Meireles
In: Poesia Completa


MÚSICA




Noite perdida,
não te lamento:
embarco a vida

no pensamento,
busco a alvorada
do sonho isento,

puro e sem nada,
- rosa encarnada,
intacta, ao vento.

Noite perdida,
noite encontrada,
morta, vivida,

e ressuscitada...
(Asa da lua
quase parada,

mostra-me a sua
sombra escondida,
que continua

a minha vida
num chão profundo!
- raiz prendida

a um outro mundo.)
Rosa encarnada
do sonho isento,

muda alvorada
que o pensamento
deixa confiada

ao tempo lento...
Minha partida,
minha chegada,

é tudo vento...

Ai da alvorada!
Noite perdida,
noite encontrada...


Cecília Meireles
Viagem, 1.938



SUAVISSIMA



Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente...
Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma...

Fica-se longe, quase morta, como ausente...
Sem ter certeza de ninguém . . . de coisa alguma...
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,

De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma...
E os galos cantam, no crepúsculo dormente...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
Tão para lá! ...No fim da tarde... além da bruma...

E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma...

Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma...
E os galos cantam, no crepúsculo dormente...

Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei








quarta-feira, 1 de outubro de 2014

SONETO XIV




Se as horas passam entre a terra e o céu
Quero também passar com meus sentidos
Esquecer-me dos tempos revividos
E simplesmente caminhar ao léu.

Agora que a penumbra desce o véu
Na floresta dos dias repetidos,
Os bichos errarão, anoitecidos,
Nas almas misteriosas do mundéu.

Comigo passarão as luas mansas
Os segredos, as vozes sem futuro,
Os minutos de pedra deste jogo.

Na floresta do tempo, as esperanças
Serão as feras no caminho escuro
Dilacerando o espírito sem fogo.


Paulo Bomfim
in Sonetos – l.959 –



AS ESTRELAS




Desenrola-se a sombra no regaço
Da morna tarde, no esmaiado anil;
Dorme, no ofego do calor febril,
A natureza, mole de cansaço.

Vagarosas estrelas! passo a passo,
O aprisco desertando, às mil e às mil,
Vindes do ignoto seio do redil
Num compacto rebanho, e encheis o espaço...

E, enquanto, lentas, sobre a paz terrena,
Vos tresmalhais tremulamente a flux,
- Uma divina música serena

Desce rolando pela vossa luz:
Cuida-se ouvir, ovelhas de ouro! a avena
Do invisível pastor que vos conduz...

Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)




sábado, 27 de setembro de 2014

A MONTANHA




Calma, entre os ventos, em lufadas cheias
De um vago sussurrar de ladainha,
Sacerdotisa em prece, o vulto alteias
Do vale, quando a noite se avizinha:

Rezas sobre os desertos e as areias,
Sobre as florestas e a amplidão marinha;
E, ajoelhadas, rodeiam-te as aldeias,
Mudas servas aos pés de uma rainha.

Ardes, num holocausto de ternura...
E abres, piedosa, a solidão bravia
Para as águias e as nuvens, a colhe-las;

E invades, como um sonho, a imensa altura,
- Última a receber o adeus do dia,
Primeira a ter a bênção das estrelas!

Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)



O VALE



Sou como um vale, numa tarde fria,
Quando as almas dos sinos, de uma em uma,
No soluçoso adeus da ave-maria
Expiram longamente pela bruma.

É pobre a minha messe. É névoa e espuma
Toda a glória e o trabalho em que eu ardia...
Mas a resignação doura e perfuma
A tristeza do termo do meu dia.

Adormecendo, no meu sonho incerto
Tenho a ilusão do prêmio que ambiciono:
Cai o céu sobre mim em pirilampos...

E num recolhimento a Deus oferto
O cansado labor e o inquieto sono
Das minhas povoações e dos meus campos.


Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)


CICLO




Manhã. Sangue em delírio, verde gomo,
Promessa ardente, berço e liminar:
A árvore pulsa, no primeiro assomo
Da vida, inchando a seiva ao sol... Sonhar!

Dia. A flor, - o noivado e o beijo, como
Em perfumes um tálamo e um altar:
A árvore abre-se em riso, espera o pomo,
E canta à voz dos pássaros... Amar!

Tarde. Messe e esplendor, glória e tributo;
A árvore maternal levanta o fruto,
A hóstia da idéia em perfeição... Pensar!

Noite. Oh! saudade!... A dolorosa rama
Da árvore aflita pelo chão derrama
As folhas, como lágrimas... Lembrar!

Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)

HINO À TARDE




Glória jovem do sol no berço de ouro em chamas,
Alva! Natal da luz, primavera do dia,
Não te amo! Nem a ti, canícula bravia,
Que a ti mesma te estruis no fogo que derramas!

Amo-te, hora hesitante em que se preludia
O adágio vesperal, - tumba que te recamas
De luto e de esplendor, de crepes e auriflamas,
Moribunda que ris sobre a própria agonia!

Amo-te, ó tarde triste, ó tarde augusta, que, entre
Os primeiros clarões das estrelas, no ventre,
Sob os véus do mistério e da sombra orvalhada,

Trazes a palpitar, como um fruto do outono,
A noite, alma nutriz da volúpia e do sono,
Perpetuação da vida e iniciação do nada...


Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)

NO BANCO DE JARDIM





No Banco de jardim
o tempo se desfaz
e resta entre ruídos
a corola de paz.

No banco do jardim.
a sombra se adelgaça
e entre besouro e concha
de segredo, o anjo passa.

No banco de jardim,
o cosmo se resume
em serena parábola,
impressentido lume.


Carlos Drummond de Andrade
In 'Poesia Completa'

PROCURANDO ESTRELAS



Faz frio! vou em busca de agasalho, 
oh! lágrimas... (e luto por contê-las!) 
olhos abertos, procurando estrelas, 
sigo, e na estrada, minha mágoa espalho. 

As flores choram lágrimas de orvalho, 
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las, 
vejo toda a criação chorando pelas 
folhas a balançar em cada galho. 

Sigo tristonho... Baila pelo espaço 
o lamento das cousas que ficaram 
sem um amor, sequer, para entendê-las. 

Deixo um pouco de dor por onde passo... 
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram 
ante o esplendor do riso das estrelas!


Lago Burnett 
In Estrela do Céu Perdido, l949

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

MANHÃ




Fresca manhã da vida, recomeço
Doutros orvalhos onde o sol se molha.
Nova canção de amor e novo preço
Do ridente triunfo que nos olha.

Larga e límpida luz donde se vê
Tudo o que não dormiu e germinou;
Tudo o que até de noite luta e crê
Na força eterna que o semeou.

Um aceno de paz em cada flor;
Um convite de guerra em cada espinho;
E os louros do perfeito vencedor
À espera de quem passa no caminho.


Miguel Torga 
in ‘Libertação’

ENCONTRO



Quando o galo cantou na escuridão
Como um claro rumor que afasta o medo,
É que ele viu que chegara a ocasião
E que findara enfim o seu degredo.

Fosse qual fosse o dedo
Que lhe apontava a vida, era de mão
Que conhecia o mágico segredo
De negar e rasgar a solidão.

Mundo! - disse ele então, - Mundo de todos!
Mundo de estrelas, de ilusões, de lodos,
Onde nada é sozinho nem disperso:

Mundo! Sou eu aquela voz perdida,
Que vem juntar-se, arrependida,
Trazendo a humana gratidão de um verso.


Miguel Torga
in ‘Libertação’

RUMO



Rasga o pano da noite um grito agudo.
É o apelo de alguém.
Mas um aceno amargo não é tudo,
De mais a mais na bruma de onde vem.

Pode ser consciente, ou ser de quem
Sabe de gritos o que sabe um mudo.
Pode ser justo, e pode ser também
Vestido de injustiças de veludo.

Por isso, ninguém corre àquela voz.
A sua imprecisão passa veloz
Pelo caminho vago da ilusão.

Fogo que queima é fogo que se exprime.
O sentido do sangue é que redime
A angústia pendular do coração.


Miguel Torga 
in ‘Libertação’

DESTINO




Acordo com os pássaros cativos,
Com a ária da vida nos ouvidos,
acordo sem amarras nos sentidos,
Fiéis à sempiterna liberdade...
Nada pôde vencer a lealdade
que juraram à deusa aventureira.
Nem as grades do sono, nem a severidade
Da noite carcereira.

Acordo e recomeço
O canto interrompido:
O desvairado canto
Da ira irrequieta...
- O canto que o poeta
Se obrigou a cantar
Antes de ter nascido,
Antes de a sua angústia começar.


Miguel Torga

SINFONIA NATURAL




O sol se põe,
poesia.

A chuva cai,
canção.

O vento assobia,
música.

O mar sacode,
vibra.

A neve cai,
de mansinho,

silêncio.
O homem
AMA...


Delores Pires
In A Estrela e a Busca

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

SONETO V



Giram os girassóis no muro antigo
E há rubor de pitangas no quintal,
Um realejo toca um toque amigo
E a tarde agora é sino de cristal.
Sino chamando tranças e cirandas,
Risadas e pregões fora de moda,
E nuvens navegando a velas pandas,
E brisa a desfolhar canções de roda.
Ah tempos habitantes de saudade,
Horas que avós fiaram suavemente,
Vida que esconde-esconde uma cidade,
Surgindo da neblina de repente!
Caminham pela tarde os assombrados,
Esses velhos meninos naufragados!



Paulo Bomfim
in Súdito da Noite



terça-feira, 23 de setembro de 2014

TARDE DE PRIMAVERA




No céu da tarde - revoada de andorinhas.
De que sala do espaço vês
a primavera e o calor dos peitos brandos?
Canta o silêncio além do ouvido
uma nuvem perpassa tules
por entre pássaros.
O amor se lembra: beijos foram dados -
colar de pérolas desprendidas
nenhuma delas foi perdida
e um coração pulsou mais forte.
Revoada de andorinhas no céu da tarde
arde a nuvem agora e se transmuta
em canção: pássaros escutam
Voa coração, para a distância
e lembra ao distante
esta presença feita de vida e dança:
o que foi e o que é na mesma trança.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

LEGENDA DOS DIAS



O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...

As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada...

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia...

Raul de Leoni
(1895-1926)

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

'CREPÚSCULO'




Alada, corta o espaço uma estrela cadente. 
As folhas fremem. Sopra o vento. A sombra avança. 
Paira no ar um langor de mística esperança 
E de doçura triste, inexprimivelmente. 

À surdina da luz irrompe, de repente, 
O coro vesperal das cigarras. E mansa, 
E marmórea, no céu, curvo e claro, balança 
Entre nuvens de opala, a concha do crescente. 

Na alma, como na terra, a noite nasce. É quando, 
Da recôndita paz das horas esquecidas, 
Vão, ao luar da saudade, os sonhos acordando ... 

E, na torre do peito, em plácidas batidas,
Melancolicamente, o coração pulsando, 
Plange o réquiem de amor das ilusões perdidas. 


Martins Fontes
Verão (1917)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

MADRUGADA



Ainda há estrelas no céu, tremelicando, tontas,
e a manhã já vem vindo, indolente e indecisa,
até que o passaredo o concerto organiza
para esperar-te, ó sol, que dos longes despontas.

Um rego d'água corre e um vento brando alisa
as franças do capim ridente,em cujas pontas
o orvalho da manhã esplende como as contas
de explêndido cristal que o sol, beijando , irisa.

As aves cantam numa alegria incontida;
a terra cheia, ri-se o capinzal molhado;
e toda a natureza é um hálito de vida.

E de há muito que está o caboclo de pé,
olhando, preguiçoso, e no sonho abismado,
a fumaça a subir do rancho de sapé.


Gilberto M. Teles
Im Poesia Reunida

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A TARDE CAI LENTAMENTE



Como quem olha pela última vez o destino
das sombras, a tarde cai, lentamente,
retomando aromas e sons
que a claridade do dia preteriu.
É, então, que ressaltam as emoções,
desordenadamente guardadas no peito
e os pássaros voam, quase loucos,
à procura do sol.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

UM BRILHO QUASE FATIGADO



Anda uma claridade esquiva 
a rondar-nos a casa. 
De encontro às vidraças,
um brilho quase fatigado 
vai abrindo a noite 
à transparência do olhar.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

NOITE



Onde os vultos escurecem na exactidão do olhar 
desvanecendo a cor dos lírios 
começa o enigma da noite: 
sombra de uma sombra, 
esse outro modo de luz transfigurada.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013







SOMBRA



Vem, senhora das trevas 
trazer-nos os contornos da luz 
nos sulcos da noite 
para que a extrema alvura dos gladíolos
ponha em nossas mãos aquele brilho, 
quase divino, que só as sombras guardam 
na vertical alteração de cada hora.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013


O RIO



Onde estivermos, a madrugada
será íntima de veleiros
que transportam a voz do rio,
contemporânea de todos os silêncios.
Porém, não acredites na excessiva
vertigem da corrente.
Tanto azul, só pode ser a cor
dos pássaros marinhos,
improvisando a foz, tão devagar,
que o mar se agita rente aos ventos.

Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

FUGA



Era noite e o céu estava em mim.

Quando olhei para dentro de mim mesmo
-só vi o rasto de meu próprio espírito,
só ouvi o eco de meus passos perdidos. . .

Aonde fui que não me lembro?


Colombo de Sousa
In: Estágio 1964


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

BEBO SOZINHO AO LUAR



Bebo sozinho ao luar
Entre as flores há um jarro de vinho.
Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo.
Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua:
com ela e a minha sombra, já somos três pessoas.
Mas a lua não bebe, e a minha sombra imita o que faço.
A sombra e a lua, companheiras casuais,
divertem-se comigo, na primavera.
Quando canto, a lua vacila.
Quando danço, a minha sombra se agita em redor.
Antes de embriagados, todos se divertem juntos.
Depois, cada um vai para a sua casa.
Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis:
nossos encontros são na Via Láctea.."

Li Po
(Tradução de Cecília Meireles)



HINO À NOITE



Ó noite, eu te desejo, e anseio o teu abraço
macio como o luar, quieto como o jazigo.
A fadiga me esvai, domina-me o cansaço,
como um boêmio feliz eu vim dormir contigo.
De sonho em sonho andei.Fui poeta, fui mendigo.
Corri atrás do tempo e me perdi no espaço
e vi se desfazer meu pensamento antigo
e em sangue transformar-se a sombra do meu passo.
Um dia, a procurar-te, olhei para o poente:
na estrada solidão da tarde, impertinente,
um pássaro de sol crepusculava a esmo.
Então eu te encontrei e, em meu triste abandono,
meus olhos disfarcei na volúpia do sono
e caminhei cantigo em busca de mim mesmo.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos


REFÉM DA LUA



Sou refém da lua cheia
ela entra pelo quarto
conhece-me os desejos
os beijos guardados
as sombras e crateras do meu cativeiro
sou refém da meia lua
ela me sabe os pedaços
tristezas e segredos
invade-me à madrugada
assiste o amor arder
sem endereço
sou refém de mim
a lua é pretexto

Alice Ruiz

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

ANGÚSTIA


O sol se foi embora e a lagoa esquecida
se voltou para dentro de si mesma.

Colombo de Sousa
In: Estágio 1964

NOTURNO




Andam passos abolidos
pela amurada da lua.

Bóia o endereço no fundo
da alegoria – não eras;

nem os vasos esculpidos
com substância de lua.

Cancelo encontros com o mundo,
bóio em mim mesmo – não eras.


Colombo de Sousa
In: Estágio 1964

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

FANTASMAS




Lívidos fantasmas deslizam nas horas perdidas
Chegam à minha alma
E como sombras da noite
Levantam os meus ímpetos mortos
Desatando as ligaduras do tempo.
O luar da madrugada fria cai no meu rosto
E ilumina com branda amargura
O meu espírito que espera a hora insolúvel.
Os caminhos cobrem-se de homens que dormem na morte
E cresce no meu coração um desejo incontido
Para uma união mais forte, mais intensa e mais perfeita.
A minha pupila é banhada pela enorme lágrima
Que umedecerá o solo castigado.
A lágrima que levará ternura às existências sofridas,
A lágrima que se mudará em sangue,
Que levantará a vida morta do universo!


Adalgisa Nery 
in Cantos da Angústia

domingo, 17 de agosto de 2014

CANÇÃO



As horas dançam no tempo
e o tempo, na madrugada.

Do cimo da vida, apenas
vejo a poeira na estrada.

Meus rastros viraram pedras
na terra do antigamente.

E as horas morrem no tempo
como o tempo, no poente.


Gilberto Mendonça Teles
Planície “in” Hora Aberta