quarta-feira, 23 de julho de 2014

CREPÚSCULO




O crepúsculo é uma tênue poeira de prata fosca,
o canto da cigarra, uma lâmina de ouro,
e as árvores são sombras expectantes
à beira do mar antigo
de cujo fundo horizonte vai surgir
como uma aparição
o veleiro que os homens sempre esperaram.


Tasso da Silveira
Canções a Curitiba
& outros poemas


EFEITOS DE LUZ




Sob o silêncio que flutua,
no crepúsculo,
a angra é um espelho de cristal.

De súbito, porém, rompendo a superfície polida,
como um brusco
reflexo,

o peixe prateado e liso
pula no ar
e, esplêndido, caracoleia no crepúsculo
e retomba no seio da água adormecida,

que sonhando, o supõe uma chispa de luar ...


Tasso da Silveira
in Poemas

terça-feira, 22 de julho de 2014

CARICATURA




A terra-mendiga escondeu-se num canto de 
sombra
para espiar,
através da janela da noite,
as estrelas dançando a sua prodigiosa dança lenta
no salão alto do Infinito.

Entre espelhos profundos, 
sobre veludos raros,
as estrelas dançam em êxtase.

E esqueceram-se de tudo
e embebedaram-se
do ritmo sereníssimo ...

E a Terra, despercebida e humilde,
tomou-se também
da encantada volúpia.

E arrepanhando o vestido roto de gaze que lhe deram,
e em que ainda brilham vidrilhos,
pôs-se a imitar, na sombra,
os movimentos harmoniosos
do bailado divino.


Tasso da Silveira
in Poemas

CONTEMPLAÇÃO



A Terra contempla as grandes árvores do crepúsculo
as grandes árvores nascidas do seu sonho
e cujas fundas raízes ainda se entranham
no seu coração doloroso.

A Terra contempla as grandes árvores imóveis
nostálgicas dos instantes de milagre
em que as gerou,
sentindo-as tão separadas,
tão mais prodigiosas, 
tão mais além dela mesma ...

A Terra contempla as grandes árvores imóveis
em cujas ramas, com o crepúsculo,
mansamente pousaram
todos os pássaros
do silêncio ...


Tasso da Silveira
Poemas

segunda-feira, 21 de julho de 2014

MANHÃ DE INVERNO




Coroada de névoas, surge a aurora 
Por detrás das montanhas do oriente; 
Vê-se um resto de sono e de preguiça, 
Nos olhos da fantástica indolente. 

Névoas enchem de um lado e de outro os morros 
Tristes como sinceras sepulturas, 
Essas que têm por simples ornamento 
Puras capelas, lágrimas mais puras. 

A custo rompe o sol; a custo invade 
O espaço todo branco; e a luz brilhante 
Fulge através do espesso nevoeiro, 
Como através de um véu fulge o diamante. 

Vento frio, mas brando, agita as folhas 
Das laranjeiras úmidas da chuva; 
Erma de flores, curva a planta o colo, 
E o chão recebe o pranto da viúva. 

Gelo não cobre o dorso das montanhas, 
Nem enche as folhas trêmulas a neve; 
Galhardo moço, o inverno deste clima 
Na verde palma a sua história escreve. 

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço 
As névoas da manhã; já pelos montes 
Vão subindo as que encheram todo o vale; 
Já se vão descobrindo os horizontes. 

Sobe de todo o pano; eis aparece 
Da natureza o esplêndido cenário; 
Tudo ali preparou co’os sábios olhos 
A suprema ciência do empresário. 

Canta a orquestra dos pássaros no mato 
A sinfonia alpestre, — a voz serena 
Acordo os ecos tímidos do vale; 
E a divina comédia invade a cena.

Machado de Assis,
in   'Falenas'


sábado, 19 de julho de 2014

A MONTANHA



A seda do céu começou a manchar-se de sombra,
e o cristal do ar sereno
embaciou-se de sombra
e com o silêncio profundo
a noite, imensa, desceu.

E junto a mim, sob o céu morto,
ficou apenas este vulto de montanha
enchendo o mundo ...


Tasso da Silveira
in Poemas

sexta-feira, 18 de julho de 2014

CIRANDA



Olho, da minha sombra,
a distância perdida,
e vejo,
desdobrando-se em curva larga e longa,
a alameda silente
das palmeiras erguidas na penumbra.

E vejo,
no céu sereno do crepúsculo cadente,
Vésper surgir tão próxima,
que a suponho uma lâmpada silente
trazida
por misteriosa mão compadecida
para clarear a minha sombra.

E eu vejo, de repente,
as palmeiras moverem-se, fantásticas,
em torno a Vésper, na alameda longa ...
... e dançarem, gloriosas, uma ronda
de ritmo e silêncio, na penumbra ...


Tasso da Silveira
in Poemas

segunda-feira, 14 de julho de 2014

NOTURNO URBANO



O cansaço anoitece
nas solidões aglomeradas.

Noite alta,
velam janelas,
semáforos insones.

Nem um trilar de grilo
estremece a teia do tédio


Helena Kolody
in Poesia Mínima

sexta-feira, 11 de julho de 2014

PÁSSARO SEM ASAS




Noites escuras,
fundas, fundas,
profundas.

A escuridão tem o encantamento
de aproximar ruídos longínquos
e aumentar os pequenos.

Choveu,
me encharco.

Minha memória 
recua,recua
até encontrar minha alma de menino.
(a escuridão 
se presta para isso.)

Sou um pássaro sem asas
e não caio
porque me seguro no ar.


Humberto Ak'abal, 
In Tecendor de Palavras

quinta-feira, 10 de julho de 2014

SUBITAMENTE




Subitamente, 
anoiteceu em mim.

Pungiu-me a dor de viver.

Helena Kolody
in Correnteza


terça-feira, 8 de julho de 2014

SEMPRE MADRUGADA



Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada.


Helena Kolody
in Correnteza

segunda-feira, 30 de junho de 2014

ESBOÇO




O seu perfil de sombra iluminado 
pela agonia rubra do sol-pôr; 
e, ao longe, e ao longe, o seu olhar magoado 
como um olhar de anunciação e amor...

O seu perfil de mágoa, ainda encoberto 
na sombra que este sonho fez maior, 
e o seu olhar sem fim, como um deserto 
de sombra, bem maior que a minha dor...

O seu perfil esguio, o seu perfil 
de Outono e primavera: - o mês de Abril, 
em Outubro, a querer reverdecer...

O seu perfil de noite e de alegria, 
laivado, aqui e além, da luz do dia, 
que no sol-pôr, além, vai a morrer...


Anrique Paço D’Arcos 
De Poesias Completas

TARDE DE INVERNO


Sob o curvo cristal da imensidade
De um céu de transparência etérea e fria,
Em que do posto sol a claridade,
Azul e melancólica, radia,

Vemos o bosque, o rio, a amenidade
Das sombras, a ondulada pradaria,
Como um painel de estranha suavidade
E encantadora e rústica poesia.

Olha como o formoso fruto loiro
Salpica de pequenos pontos de oiro
Aquela verdejante laranjeira!

E além, além, do céu no alaranjado
Fundo se esbate e avulta o recortado
E sombrio perfil da cordilheira...

- Júlia Cortines 
em "Versos". 



sexta-feira, 27 de junho de 2014

INVENÇÃO DA NOITE




Deste silencio e desta treva
construo a minha noite
particular e intransferível.
Não preciso inventar as estrelas,
elas nascem e brilham por si mesmas.
E à meia-noite uma lua triste
levanta a cara de prata no horizonte
e verte nos meus olhos um choro, um frio.

Anderson Braga Horta
In: Fragmentos da Paixão

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A LUA


 
A proa reta abre no oceano
Um tumulto de espumas pampas.
Delas nascer parece a esteira
Do luar sobre as águas mansas.
 
O mar jaz como um céu tombado.
Ora é o céu que é um mar, onde a lua,
A só, silente louca, emerge
Das ondas-nuvens, toda nua.
 
 
Manuel Bandeira
in Estrela da vida inteira.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

SONHOS NO CREPÚSCULO




Sonhos no crepúsculo,
Apenas sonhos encerrando o dia,
Retornando-o com tal desfecho,
Aos tons cinza, escurecidos,
Às coisas fundas e longínquas
Do território dos sonhos.

Sonhos, apenas sonhos no crepúsculo,
Apenas as rotas imagens lembradas
Dos tempos idos, quando o ocaso de cada dia
Escrevia em prantos as perdas da afeição.

Lágrimas e perdas e sonhos desfeitos
Talvez acolham teu coração
ao anoitecer.

Carl Sandburg
Tradução de Fernando Campanella

terça-feira, 24 de junho de 2014

DE TARDE



Eu vi voando caminho do Ocidente,
o bando ideal de minhas ilusões;
Do sol, um raio trêmulo, dormente,
dourava-as com seus últimos clarões.

Para longe corriam doidamente
a crença, o amor, meigas aspirações ...
Creio até, que entre as aves, tristemente,
iam partindo os nossos corações.

Alem, além ... e os pássaros risonhos,
foram-se todos. Vênus lacrimosa
brilhou. No mais, deserta a imensidade.

Não! No ocaso do sol e de meus sonhos,
ficou, ainda a pairar triste e formosa,
a ave formosa e triste da saudade.


Augusto de Lima
in Coletânea de Poesias

segunda-feira, 9 de junho de 2014

OS SENTIMENTOS QUE MAIS DOEM...



"Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem,
são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis,
precisamente porque são impossíveis, a saudade do que 
nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de 
não ser outro, a insatisfação da existência do mundo.
Todos estes meios tons da inconsciência da alma criam 
em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do
que somos..." 

Fernando Pessoa ,(Bernardo Soares)
in Livro do Desassossego
 




quinta-feira, 5 de junho de 2014

NÉVOA...



"Névoa... A manhã é névoa e o dia é este...
Que quero eu dele ou ele quer de mim?
Quero que a minha angústia nada ateste
De si, nem de quem quer um fim...

Quero que a manhã seja como é,
Porque o seria sem o eu querer;
E que eu tenha esse resto vil de fé
Que é ainda querer viver..."

Fernando Pessoa
in Poesia

terça-feira, 3 de junho de 2014

TODA A PAZ DA NATUREZA...



"...


Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.


Mas eu fico triste como um pôr do sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria o fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.


Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.


..."

Fernando Pessoa -
 Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos 

domingo, 1 de junho de 2014

A BALADA DAS FOLHAS




No crepúsculo de gaze
E ouro, anda alguém a cantar
Uma cantiga que é quase
Um choro humano, pelo ar...
Pensativo, os olhos ponho
Nas folhas, - vida que vai
A extinguir-se, sonho a sonho, 
Em cada folha que cai...

A primeira é verde e é linda.
Porque o vento a desprendeu ?
Não tinha vivido ainda,
Não tinha amado e morreu.
Vento do Destino avança,
E num soluço, num ai,
Cai um mundo de esperança
Na folha humilde que cai.

A segunda é a folha morta, 
Passado... Desilusão...
Mal o vento os ramos corta, 
Ela adormece no chão...
É a saudade, - folha da alma –
Que no tormento se abstrai
E vive da morte calma
De cada sonho que cai.

OFERENDA:

No crepúsculo indeciso
Da vida, me martirizo
Por um sonho que se esvai...
Caem folhas... Chorei !...
Há uma lágrima, um sorriso...
Em cada folha que cai.


Olegário Mariano
in 'Poemas de amor e de saudade'
1.932.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

HÁ CIDADES ACESAS NA DISTÂNCIA



Ha cidades acesas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.

Ha cidades acesas cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.

E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual e o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de nevoa e de não ser.



Sophia de Mello Breyner Andresen
in 'Poemas escolhidos' 2004

HORA LILÁS...



Hora lilás, da cor desta saudade
Que não me deixa mais o coração,
Hora em que a alma toda se me invade
Só de tristeza e de desolação ...

Hora em que eu lembro a minha pouca idade
E a minha tão cruel desilusão ...
Tudo se esvai na bruma da saudade,
Essa tão doce e triste cerração ...

Hora lias, da cor que me entristece,
Desta saudade que jamais esquece
Meu coração cansado de sofrer;

Hora em que eu vivo a vida já vivida,
Hora lilás, da cor da minha vida,
Pois é saudade só o meu viver.


Anrique Paço D’Arcos
in Poesias Completas

NÉVOA



Que densa névoa cobre a terra inteira!
Dir-se-ia que pousou na terra o próprio céu ...
E lembra um andorinha prisioneira
Dum condor que sobre ela as asas estendeu.

Moldados pela noite à sua negra imagem,
Cismam meus olhos fundos como um rio.
Tornam mais densa ao longe a noite da paisagem
Os montes dum perfil ascético e sombrio.

E esqueço-me a pensar se tudo o que me envolve,
As árvores, os montes e os rochedos,
Não é um sonho só que em névoa se dissolve,
Como ao quebrar da luz, sombras, noturnos medos.

Tão ausente me sinto, tão distante,
Que um sonho me parece a própria vida;
A névoa cresce, aumenta a cada instante ...
E a minha sombra jaz na sombra confundida ...


Anrique Paço D’Arcos
in Poesias Completas

CREPÚSCULO



Paisagem do meu sonho .. Que tristeza
Alonga para os céus os pinheirais!
Crescem na tarde sombras e incertezas,
Sobe da terra o fumo dos casais.

É a hora dolorida em que se reza,
Em que as almas e as cousas são iguais,
No longo adeus do sol à natureza,
Cheia de luto e misterioso ais.

Paisagem do meu sonho em que me abismo,
Olhos turvos de lágrimas, e cismo
Na dor de quanto vai perdido à sorte ...

É a hora dolorida da ansiedade,
Em que a vida se abraça à Eternidade
E o meu sentir se casa com a morte!


Anrique Paço D’Arcos
in Poesias Completas

quinta-feira, 29 de maio de 2014

A ESTRELA



Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.


Manuel Bandeira
in Estrela da vida inteira.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

UM ETERNO SOL-PÔR DO QUE SOMOS...



"Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem,
são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis,
precisamente porque são impossíveis, a saudade do que 
nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de 
não ser outro, a insatisfação da existência do mundo.
Todos estes meios tons da inconsciência da alma criam 
em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do
que somos..." 

Fernando Pessoa ,(Bernardo Soares)
in Livro do Desassossego

VOZES DO MAR



Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d"oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?…
 
Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?
 
Tens cantos d"epopeias?Tens anseios
D"amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!
 
Donde vem essa voz,ó mar amigo?…
… Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!
 
Florbela Espanca
In “Trocando olhares” (1916)


ALBA



Não faz mal
que amanheça devagar.
As flores não têm pressa,
nem os frutos.
Sabem 
que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.

Não faz mal 
que, devagar,
o dia vença a noite
em seus redutos
do Leste.

O que importa
é ter enxutos os olhos
e a intenção de madrugar.

Geir Campos
In Cantigas de Acordar Mulher (1964)


PENUMBRA



Tarde fria
Silêncio sepulcral
Olhos vermelhos
Na mente, temporal

Já não tenho lágrimas
De sobra, solidão
Já não sinto minha alma
Que ao meu lado, jaz no chão...

24/05/2009
19h 51min

Jefferson Dieckmann.


terça-feira, 27 de maio de 2014

O MAR DO CREPÚSCULO



Eis a terra que o crepúsculo banha,
Eis as orlas do Mar Amarelo;
Por onde se ergueu e aonde se abala,
São estes os ocidentais mistérios.

Noite após noite, seu tráfego purpúreo
Cargas de opala pelo cais dispersa;
E mercadores ponderam sobre horizontes,
Calculam rumos e somem em barcos de sortilégio.

Púrpura –
A cor das rainhas é esta –
A cor de um sol, no poente;
- Ainda, além dessa, o âmbar;
E o berilo – se o dia vai a meio.

Quando à noite, porém, amplidões de aurora
Atingem, de súbito, os homens –
Essa cor, e o feitiço, Mas, a Natureza
Reserva um lugar, também, para os cristais de iodo.


Emily Dickinson
in Poemas de Emily Dickinson

sábado, 24 de maio de 2014

SONATA AO CREPÚSCULO



Trompas do sol, borés do mar, tubas da mata,
Esfalfai-vos, rugindo, - e emudecei... Apenas,
Agora, trilem no ar, como em cristal e prata,
Rústicos tamborins e pastoris avenas.

Trescala o campo, e incensa o ocaso, numa oblata.
- Surgem da Idade de Ouro, em paisagens serenas,
Os deuses; Eros sonha; e, acordando à sonata,
Bailam rindo as sutis alípedes Camenas.

Depois, na sombra, à voz das cornamusas graves,
Termina a pastoral num lento epitalâmio...
Cala-se o vento... Expira a surdina das aves...

E a terra, noiva, a ansiar, no desejo que a enleva,
Cora e desmaia, ao seio aconchegando o flâmeo,
Entre o pudor da tarde e a tentação da treva.

Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)

segunda-feira, 19 de maio de 2014

EM VIAGEM




Arde a montanha
- brasa de ametista –
atravessada de sol

O grande crepúsculo
é um calmo incêndio
que se espalma
na redoma da tarde

Os laranjais
- surdo perfume –
se preparam
para acolher a noite



Hélio Pellegrino
In: Minérios Domados


sábado, 17 de maio de 2014

O CREPÚSCULO DA BELEZA



Vê-se no espelho; e vê, pela janela,
A dolorosa angústia vespertina:
Pálido, morre o sol... Mas, ai! termina
Outra tarde mais triste, dentro dela;

Outra queda mais funda lhe revela
O aço feroz, e o horror de outra ruína:
Rouba-lhe a idade, pérfida e assassina,
Mais do que a vida, o orgulho de ser bela!

Fios de prata... Rugas... O desgosto
Enche-as de sombras, como a sufoca-la
Numa noite que aí vem... E no seu rosto

Uma lágrima trêmula resvala,
Trêmula, a cintilar, - como, ao sol posto,
Uma primeira estrela em céu de opala...

Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)

terça-feira, 22 de abril de 2014

CREPÚSCULO



-Estrelas não!
Pedaços de almas tristes
Que a noite acende pra enfeitar o céu.

Colombo de Sousa
In: Estágio 1964


domingo, 6 de abril de 2014

O CENTRO DA NOITE



Noite disforme.
Se olhares o céu, o que não vale a pena,
Verás que o brilho das estrelas é uma coisa inútil
E sentirás o frio da vida.

Dante Milano, 
in Poesia e prosa





sábado, 8 de março de 2014

MARINA COLASANTI



" Diz a lenda que o poeta
Li Po
afogou-se na noite em que
embriagado
quis agarrar a lua
sobre o lago .
É lenda , bem se vê .
Pois a verdade é que
a Lua
teria seguido o poeta
a qualquer canto
se ele apenas a tivesse chamado ."


Marina Colasanti ,
in " Rota de Colisão "

A LUA




Lua mulher:
Há uma grande afinidade
Entre as musas a Virgem Maria e a lua
Talvez o demônio não tenha penetrado na lua
Talvez que a lua não seja tão bela
Como é vista da terra


Não é possível ser poeta sem a lua
A lua influi sobre a afetividade
Não é possível haver amor sem lua:
Sem a lua o mundo acabaria.


Que brancura de lua sobre a pedra.

Murilo Mendes
In Poesia Completa e Prosa

LUAR DE ABRIL




Branco luar de Abril, falena aurifulgente
que espalmas no infinito as asas ideais,
teu lívido fulgor revive-me na mente,
o tempo que passou e que não volta mais ...

Cismando à tua luz, calma e serenamente,
um dia longe ouvi sonoros madrigais ...
Então, eram minh’alma um lago transparente
refletindo o esplendor das plagas siderais.

Crisântemo do azul, inspiração do poeta,
contemplando-te assim, dentro da noite quieta,
o mago rouxinol do Sonho ouvi cantar:

De um momento feliz a gente não se esquece,
branco luar de Abril, a alma não envelhece
e dentro de minh’alma esplende outro luar.


Emiliana Delminda
in ‘Folhas Caídas’

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

ESTRANHAS AVENTURAS DA INFÂNCIA




Era um caminho tão pequenino
Que nem sabia aonde ia,
Por entre uns morros se perdia
Que ele pensava que eram montanhas...

Enquanto a tarde, lenta, caia,
Aflitamente o procuramos.
Sozinho assim, aonde iria?
Porém, deixamos para um outro dia...

Perdido e só, nós o deixamos!

E quando, enfim, ali voltamos
Já nada havia, só ervas mas...
Tão vasto e triste sentiste o mundo
Que te achegaste, desamparada...

E foi bem juntos que regressamos,
Ombro com ombro, a mão na mão,
Enquanto, lenta, caía a tarde
E nos espiava a bruxa negra...

E nos seguia a bruxa negra
Que hoje se chama Solidão!

Mario Quintana
In Baú de Espantos

APONTAMENTO




Ó noite, ó noite, ó noite!
Luar e primavera
e os telhados cobrindo
sonhos que a vida gera!

Subo por essas horas
solitária e sincera,
e encontro, exausta e pura,
minha alma que me espera.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa


domingo, 17 de novembro de 2013

ENQUANTO TUDO DORME.......



Enquanto tudo dorme, sento-me cheio de alegria
Sob a abóbada estrelada que as frontes alumia;
Perscruto se do alto vem um sinal rumoroso;
E a hora com sua asas docemente me brinda
Quando contemplo, comovido, a festa infinda
Que, de noite, ao mundo oferece o céu radioso!

Penso às vezes que estes sóis que resplandecem,
Na terra adormecida, só a minha a alma aquecem;
Que para os entender, só eu fui predestinado;
Que sou eu, sombra vã, obscura e taciturna,
O misterioso rei desta pompa nocturna;
Que só para mim o céu foi iluminado!

Novembro de 1829

Victor Hugo ,

 in Poemas
(tradução de Maria Manuela Parreira da Silva)

A CADA UM



Amanhece.

O Sol come a neblina
e começa a pintar
caminhos,
árvores,
casinhas,
animais,
pessoas…
E a cada um
lhe põe sombra.

Humberto Ak’abal
In "Tecedor de palavras"

terça-feira, 12 de novembro de 2013

AURORA


O milagre da noite
se abrindo em manhã,
soltando o jorro preso
da luz,
soltando os pássaros,
as nuvens claras,
as cores todas
e o cheiro bom do café.



Roseana Murray,
in Poemas de céu


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A TARDE CAI LENTAMENTE




Como quem olha pela última vez o destino
das sombras, a tarde cai, lentamente,
retomando aromas e sons
que a claridade do dia preteriu.
É, então, que ressaltam as emoções,
desordenadamente guardadas no peito
e os pássaros voam, quase loucos,
à procura do sol.

Graça Pires

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O RIO



 
Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas.



Manuel Bandeira
In: "Estrela da vida inteira"
 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

ESPECTROS




Nas noites tempestuosas, sobretudo
Quando lá fora o vendaval estronda
E do pélago iroso à voz hedionda
Os céus respondem e estremece tudo,


Do alfarrábio, que esta alma ávida sonda.
Erguendo o olhar; exausto a tanto estudo,
Vejo ante mim, pelo aposento mudo,
Passarem lentos, em morosa ronda,


Da lâmpada à inconstante claridade
(Que ao vento ora esmorece ora se aviva,
Em largas sombras e esplendor de sois),


Silenciosos fantasmas de outra idade,
À sugestão da noite rediviva
- Deuses, demônios, monstros, reis e heróis.


Cecília Meireles
In: Espectros (1919

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

AMARGO




Há um mar, o dos velames,
das praias ardendo em ouro.

Há outro mar, o mar noturno,
o das marés com a lua
a boiar no fundo
o mênstruo da madrugada.

E afinal o outro, o do amor amargo,
meu mar particular, o mais profundo,
com recifes sangrando, um mar sedento
e apunhalado.


Max Martins
De Anti-retrato (1960)


domingo, 3 de novembro de 2013

AS ÁRVORES



Na celagem vermelha, que se banha
Da rutilante imolação do dia,
As árvores, ao longe, na montanha,
Retorcem-se espectrais à ventania.

Árvores negras, que visão estranha
Vol aterra? que horror vos arrepia?
Que pesadelo os troncos vos assanha,
Descabelando a vossa ramaria?

Tendes alma também... Amais o seio
Da terra; mas sonhais, como sonhamos,
Bracejais, como nós, no mesmo anseio...

Infelizes, no píncaro do monte,
(Ah! não ter asas!...) estendeis os ramos
À esperança e ao mistério do horizonte...


Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)









POENTE



A hora é de cinza e de fogo.
Eu morro-a dentro de mim.
Deixemos a crença em rogo,
Saibamos sentir-nos Fim.

Não me toques, fales,olhes...
Distrai-te de eu 'star aqui
Eu quero que tu desfolhes
A minha ideia de ti...

Quero despir-me de ter-te,
Quero morrer-me de amar-te.
Tua presença converte
Meu esquecer-te em odiar-te.

Quero estar só nesta hora...
Sem Tragédia...Frente a frente
Com a minha alma que chora
Sob o céu indiferente,

Basta estar, sem que haja ao lado
Exterior da minha alma
Meu saber-te ali, iriado
De ti, mancha nesta calma

Ânsia de me não possuir,
De me não ter mais que meu,
De me deixar esvair
Pela indiferença do céu.

Fernando Pessoa
In Poesia