terça-feira, 30 de julho de 2013

SONETO


Hora pálida e branca, hora em que o dia
A pouco e pouco sai da sombra triste;
Hora em que o sol de longe principia
A inundar de luz tudo o que existe;

Hora branca do doce madrugar,
Hora em que a luz também toma essa cor,
Hora em que tudo acorda e a cantar
Também acorda em mim a minha dor;

Hora branca do doce alvorecer,
Hora da cor do sol que vai nascer
O seu manto de sombra a dissipar ...

Hora em que a treva aos poucos se levanta,
Hora em que a terra docemente canta,
Hora da vida toda a despertar!

Anrique Paço D"Arcos
Em Poesia completa

domingo, 28 de julho de 2013

TRANSIÇÃO



O amanhecer e o anoitecer
parece deixarem-me intacta.
Mas os meus olhos estão vendo
o que há de mim, de mesma e exata.

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo a cada instante,
outra imagem se despedaça.

Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.

Ninguém distingue a leve sombra
que o autêntico desenho mata.
E para os outros vou ficando
a mesma, continuada e exata.

(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas.
e pelas mil que vão chegando,
noite e dia... -- não consentidas.
mas recebidas e esperadas!)


Cecília Meireles
In Mar absoluto 

À NOITE



Este silêncio, vasto e imponderável,
revive as coisas mortas
atraindo a luz em sua corte.
Tempo de sedar,
de transbordar as taças
com fluidos de lua -
e de brindar à noite.

Fernando Campanella

quarta-feira, 24 de julho de 2013

CREPÚSCULO



A luz do dia empalidece,
O Sol mergulha no ocidente!
- Momento amargo para quem padece
E busca alivio ao coração doente!
Penas de amor são um tormento,
Mágoas somente o amor encerra,,,
- Um grande amor e um grande sofrimento
Vão sempre de mãos dadas pela terra!
Mas já de mil milhões de estrelas
O céu de Deus todo se abrasa…
- Vou esconder a mais brilhante delas
E edificar sobre ela a minha casa!

António Feijó


ENTARDECER



Vejo as vermelhas caudas do crepúsculo
e o verde fulgor do mar.
Lenta é a tarde
e quero demorá-la em densas pálpebras,
consagrando-a à companheira imóvel
na melancólica quietude do casario
em que as consoantes são de espessa pedra e surda plenitude.
Neste murmúrio de sombra ainda tão solar
quero envolver-me cúmplice dos muros
e da côncava expansão do tempo,
até às praias distantes de um sossegado azul.
Assim me alongarei nas mãos da sombra imóvel
com o fogo do silêncio e a melancolia das colinas,
vivendo o instante de um dinamismo lento
em que estar é ser seguro na igualdade.


António Ramos Rosa
in Facilidade do Ar





segunda-feira, 22 de julho de 2013

CREPÚSCULO


Silencioso
Solitário
Sinistro
Um sol-poente
Celebra o suicídio da tarde.

H. Dobal

domingo, 21 de julho de 2013

O MARTELO



As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.

Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.


Manuel Bandeira

sexta-feira, 12 de julho de 2013

LUAR PÓSTUMO



Numa noite de lua escreverei palavras,
simples palavras tão certas
que hão de voar para longe, com asas súbitas,
e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.

O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,
nascerá de novo no mundo.
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados,
livre de pálpebras, e num país sem muros.

Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,
é doce caminhar, viver o que se vive.
Porque a noite é tão grande... Ah, quem faz tanta noite?
E estar próximo é tão impossível!

Cecília Meireles
In: Poesia Completa

quarta-feira, 10 de julho de 2013

NOCTURNOS -71



Noite de folha em folha murmurada,
Branca de mil silêncios, negra de astros,
Com desertos de sombra e luar, dança
Imperceptível em gestos quietos.

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

HORAS MORTAS



Horas mortas ... silêncio do luar
Descendo sobre as águas;
E os rochedos na sombra a meditar
E o vento adormecendo as misteriosas mágoas.

Horas mortas ... Fantástica paisagem ...
Ó bailado das sombras pelo chão!
É quando me aparece o luar da sua imagem
No sem luz que leva ao coração.

Horas mortas de sonho e de mistério,
Em que as almas e as coisas entristecem;
E os mortos, ao luar, no cemitério,
Se levantam da campa e os vivos adormecem ...

Horas mortas da noite, em que medito;
Paisagem da saudade ...
Horas mortas, perdidas no infinito,
Quando a vida se eleva e alcança a Eternidade ...


Anrique Paço D’Arcos
in "Poesias Completas"

sábado, 6 de julho de 2013

HÁ CIDADES ACESAS NA DISTÂNCIA




Há cidades acesas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.

Há cidades cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.

E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN,
in POESIA

sexta-feira, 5 de julho de 2013

BERNARDO SOARES



Ó noite onde as estrelas mentem luz, ó noite,
 única coisa do tamanho do Universo, torna-me,
 corpo e alma, parte do teu corpo, que eu me 
 perca em ser mera treva e me torne noite também,
 sem sonhos que sejam estrelas em mim, nem sol 
 esperado que ilumine o futuro.

Bernardo Soares,
in Livro do Desassossego

quarta-feira, 3 de julho de 2013

CASIMIRO DE BRITO



Quando livros já não tiver
lerei as estrelas -
quando elas se cansarem
da minha solidão
lerei a palma
da mão.

Casimiro de Brito
In Arte Pobre

terça-feira, 2 de julho de 2013

CHUVA



Sobre as casas fechadas, a chuva.
Sobre o sono dos homens, a chuva.
Sobre os mortos inúmeros, a chuva.

A chuva noturna sobre as arvores.
A chuva noturna sobre os templos
A chuva noturna sobre o mar.

Sobre a solidão deste mundo, a chuva.
A solidão da chuva, na solidão.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos

HAICAI



O vidro embaçado
comunica à janela
o frio lá de fora...

Delores Pires ,
in O Livro dos Haicais

MARIO QUINTANA



"Um dia de chuva é bom para a gente comprar
livros de poemas... 
Quem perguntar por que, de nada lhe adianta
comprar um livro de poemas."


Mario Quintana,
in Caderno H

quinta-feira, 27 de junho de 2013

O NEVOEIRO DA ESPERA COLADO NOS SONHOS



Desenrola-se em nossos olhos
a vertigem transparente
que agride o declínio do dia
quando a lua se encosta nos vidros
e temos o nevoeiro da espera colado nos sonhos.
Há muito que sabemos como é intocável a luz
do orvalho na raiz da mágoa.
Palavras em estilhaços flutuam sobre os móveis
como fantasmas ou como as fadas
da mais antiga infância.
Respiramos devagar o sopro errante do vento.

Graça Pires


domingo, 23 de junho de 2013

CANÇÃO



Eras um rosto
Na noite larga
De altas insônias
Iluminada.

Serás um dia
Vago retrato
De quem se diga:
“o antepassado”.

Eras um poema
Cujas palavras
Cresciam dentre
Mistério e lágrimas.

Serás silêncio,
Tempo sem rastro,
De esquecimentos
Atravessados.

Disso é que sofre
A amargurada
Flor da memória
Que ao vento fala


Cecília Meireles
In Retrato Natural

TRISTE ENCANTO




Triste encanto das tardes borralheiras
Que enchem de cinza o coração da gente!
A tarde lembra um passarinho doente
A pipilar os pingos das goteiras...
 
A tarde pobre fica, horas inteiras,
A espiar pelas vidraças, tristemente,
O crepitar das brasas na lareira...
Meu Deus...o frio que a pobrezinha sente!
 
Por que é que esses Arcanjos neurastênicos
Só usam névoa em seus efeitos cênicos?
Nenhum azul para te distraíres...
 
Ah, se eu pudesse, tardezinha pobre,
Eu pintava trezentos arco-íris
Nesse tristonho céu que nos encobre!... 
 
 
Mario Quintana,
in A rua dos cataventos
 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

SENTIMENTO DA NOITE



Com o fundo poder azul da noite,
que me clareia o coração,
por uma súbita nesga entre as nuvens
reluz o mundo das estrelas e da lua.


Em seu jazigo, lampeja minha alma
com redivivo ardor;
ao pálido perfume das esferas,
a noite dedilha a harpa.


A essa convocação, míngua a penúria
e a preocupação foge.
Mesmo que eu amanhã já não esteja
aqui – aqui estou hoje! 



Hermann Hesse
In: Andares

terça-feira, 18 de junho de 2013

A NOITE



Para que durmas, meu filho,
não há mais luz: é sol posto,
não há mais brilho que o orvalho,
mais brancura que meu rosto

Para que durmas, meu filho
o caminho emudeceu,
soluça apenas o rio,
nada existe senão eu.

Desfez-se a planície em névoa,
Tolheu-se o suspiro azul.
Pousou com dedos leves,
por sobre o mundo, a quietude.

Não embalei tão somente
ao meu filho com o meu canto:
ia a terra adormecendo
ao vai-vem desse acalanto.


Gabriela Mistral

segunda-feira, 17 de junho de 2013

SONETO DA AURORA



Quando a aurora se for, não mais seremos
o que ora somos, entre a Noite e o Dia,
cegos contempladores da magia
que no aquário da noite surpreendemos.

Somos flamas do instante, e em luz ardemos
presos eternamente ao que seria
o amor em nossos corpos, alegria
do perpétuo horizonte em que nascemos.

Das corolas do céu extraio a ardente
forma de redenção cativa à hora
em que ao puro lilá fui entregar-me.

Que somos nós senão a eternidade?
O amor transfigurou-se como a aurora
e se extinguiu após enfeitiçar-me.

Lêdo Ivo 
de Central Poética

domingo, 16 de junho de 2013

À ESTRELA



Até à estrela que reluz 
Há uma distância de trespasse.
Correu milênios sua luz
Para que enfim nos alcançasse

Talvez há muito já se fora
No longe azul extinto astro
Porém seus raios só agora
Ao nosso olhar mostram seu rastro.

A aura da estrela que morreu
No alto do céu se faz dar fé.
Era, e ninguém a percebeu,
Hoje que a vemos já não é.

Também assim a nossa dor
Na abissal noite se finda.
Porém a luz do extinto amor
Os nossos passos segue ainda.

Mihai Eminescu
in "Luar"

AO LUAR



Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha táctil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado…

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!


Augusto dos Anjos 
de "Eu"

CITAÇÃO



"...Hoje sou pastor de rios sentinela de 
colinas mirante das fortalezas nas ameias 
das neblinas...
É por mim que à noite os ventos vêm chorar
sobre as ruínas..."

Afonso Estebanez Stael

quarta-feira, 12 de junho de 2013

NOTURNO DO AMOR



Vem de manso...de leve...e suave e doce
Como um silêncio estático de prece...
Que a sua vida seja tal qual fosse
Apenas a saudade que me viesse...

Vem de manso...Na névoa da penumbra,
Faze um gesto litúrgico de benção!
A alta noite tristíssima deslumbra
Dos meus olhos nostálgicos, que pensam...

Sugere, mas não fales... Porque a frase
É vã, no amor...Mistério...Sonolência...
O esquecimento, quase...A morte, quase...
Intuições...Irrealismo...Inconsciência...


-Cecília Meireles- 
In:"Mar absoluto"



terça-feira, 11 de junho de 2013

DAI-ME SENHOR


Senhor, dai-me a inocência dos animais 
para que eu possa beber nesta manhã
a harmonia e a força das coisas naturais.

Apagai a máscara vazia e vã
de humanidade
apagai a vaidade,
para que eu me perca e me dissolva
na perfeição da manhã
e para que o vento me devolva
a parte de mim que vive
à beira dum jardim que só eu tive.


Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 4 de junho de 2013

PRÓLOGO



Estrelas que luzis na abóbada infinita,
Inquietamente, assim, como um olhar que fascina,
Vendo-vos palpitar, meu coração palpita,
Mordido de paixão por essa luz divina ...

Largos céus ideais, região diamantina,
Mirífico esplendor, ó pérola esquisita,
Quanta cobiça vã, que nunca se imagina,
Quanto furor enfim o ânimo me excita!

É impossível, pois, que eu amo unicamente,
A névoa que fugiu, a forma evanescente,
A sombra que se foi tal qual uma visão ...

E por isso também, por isso é que eu suponho
Que a vida, em suma, é um grande e extravagante Sonho,
E a Beleza não é mais do que uma ilusão!


Emiliano Perneta
in Ilusão & outros poemas

APARIÇÃO




Na penumbra
Se vivem reflexos de esperança, 
na pausa da incerteza!

Entre raios estelares,
Prenúncio de alva beleza,
Gritos doridos, cânticos,
Adoração e prece!

E, de uma voz doce,
Celestial, melodiosa,
Um chamamento de amor:

“dizei a todos que venham também...”!

E vieram... com fé,
E voltaram... em paz,
Procurando tal amor!


Joaquim do Carmo
em ‘Amanhecer Pelo Fim da Tarde”

domingo, 2 de junho de 2013

CREPÚSCULO



Resplandece o crepúsculo de jade,
de turquesa, de opala e cornalinas.
Pelos céus há pavões.Toda a cidade
é lilás com repuxos de anilinas.

As aves cor de gesso, à claridade
do acaso, ficam quase solferinas.
A cor douradas agora tudo invade,
tornando as passifloras ambarinas.

A natureza cintilante e amena
sardanapalescamente se decora,
brilhando mais que as asas da falena.

Todo o horizonte de lilás se enflora.
Traja galas de príncipe a açucena.
Não parece o poente mas a aurora.

Sosígenes Costa
In Poesia Completa

sexta-feira, 31 de maio de 2013

ENAMORADO DA VIDA



Eu sou um enamorado da Vida!
Para sentir melhor o céu na minha casa,
Plantei a minha casa entre o mar e a montanha.
Se as ondas vêm rugir a meus pés, a horas mortas,
A lua desce a mim numa carícia estranha.

Bebo as estrelas de mais perto. . . Abraço
Todo o corpo do céu num simples movimento.
E, quando chove, sinto a torrente das chuvas
Trazendo da montanha, em seu penacho de águas,
Frondes, ninhos, calhaus e pássaros ao vento.

Eu sou um enamorado da Vida!
Amo-a por tudo quanto ela me pode dar:
A água fresca da fonte, a carícia da sombra,
E até a calma silenciosa e mansa
Desse crepúsculo que baixa devagar.

- Olegário Mariano -

sábado, 25 de maio de 2013

SERENA



Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavidade
do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levitação
da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.


- Henriqueta Lisboa,
in "Azul profundo"


SAIO DO SONHO, DA NOITE, DO ABSURDO




Saio do sonho, da noite, do absurdo:
sou navegante que aborda o limite humano,
espuma breve.
Meus vestidos são de uma tristeza total:
da frágil superfície ao denso forro,
profundo mar.
Pergunto-me por que venho
e por que venho assim vestida:
- é dos lugares do sonho, da noite, do absurdo?
- é do limite humano a que abordo,
séria e inerme?
Entre os dias humanos
e a noite ex-humana
que mensageiro acaso somos?
A que destinatários?
em que linguagem?
que mensagem?
Ó noite, ó sonhos,ó absurdo
onde, no entanto, fluíamos, claríssimos!

Cecília Meireles
In: Poesia Completa

quarta-feira, 22 de maio de 2013

ANOITECER



A luz desmaia num fulgor d'aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu, que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora
Tenho bênçãos d'amor pra toda a gente!
Como eu sou pequenina e tão dolente
No amargo infinito desta hora!

Horas tristes que são o meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Meu áspero e intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...


Florbela Espanca

terça-feira, 21 de maio de 2013

AO LUAR



Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!


AUGUSTO DOS ANJOS


sexta-feira, 17 de maio de 2013

ANTÍQUA



Ali, entre os juncais,
a face de um deus esquecido
reverberava na tarde.
- Tua alma é antiga, junta-te a nós -
chamavam me os juncos, e tremiam
ao meu silêncio - um vento
que eriçava a memória da água.


Fernando Campanella

SEGREDO




Imagino
que saio a pescar a luz na tarde,
meu samburá a tiracolo,
antes que os deuses do dia
atrelem as carruagens
e o sol se incline
no abismo da memória.

Mudo as pedras.

Imagino, então,
Dona Lua,
por puro encanto,
até as franjas do infinito
tecendo um halo
e capturando estrelas
no encalço.

Imagino, imagino,
e deste imaginar me reincorporo,
chispo rudes pérolas:
alucino?

Fernando Campanella

terça-feira, 14 de maio de 2013

PENUMBRA



Na penumbra dos ombros é que tudo começa
quando subitamente só a noite nos vê
E nos abre uma porta nos aponta uma seta

para sermos de novo quem deixámos de ser


DAVID MOURÃO-FERREIRA,
 in OBRA POÉTICA

segunda-feira, 13 de maio de 2013

RECOLHIDO A SÓS




Recolhido a sós, no silêncio dos astros,
absolutamente nada pertubará a noite,
parado o tempo, despojado o pensamento,
Nem um só tremor agitará o seu vazio.

Eu queria que o instante demorasse horas,
que meus olhos se queimassem
com o fogo das estrelas.

Manuel Filipe,
in "Tempo de Cinza"

quarta-feira, 1 de maio de 2013

SOLIDÃO



Imensas noites de inverno,
com frias montanhas mudas,
e o mar negro, mais eterno,
mais terrível, mais profundo.
Este rugido das águas
é uma tristeza sem forma:
sobe rochas, desce fráguas,
vem para o mundo, e retorna...

E a névoa desmancha os astros,
e o vento gira as areias:
nem pelo chão ficam rastros
nem, pelo silêncio, estrêlas.

A noite fecha seus lábios
— terra e céu — guardado nome.
E os seus longos sonhos sábios
geram a vida dos homens.

Geram os olhos incertos,
por onde descem os rios
que andam nos campos abertos
da claridade do dia.


Cecília Meireles 
in "Poesia Completas"


terça-feira, 30 de abril de 2013

SERENATA



Repara na canção tardia
que timidamente se eleva,
num arrulho de fonte fria.
O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.
Repara na canção tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.
É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.
Repara na canção tardia
que por sobre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.
E nessas letras tão pequenas
o universo inteiro perdura.
E o tempo suspira na altura
por eternidades serenas.

Cecília Meireles



segunda-feira, 29 de abril de 2013

IMPRESSIONISTA




Uma ocasião, 
meu pai pintou a casa toda 
de alaranjado brilhante. 
Por muito tempo moramos numa casa, 
como ele mesmo dizia, 
constantemente amanhecendo. 
 
Adélia Prado

sexta-feira, 26 de abril de 2013

MADRUGADA




E de dentro dela
Abraçada
Ao silêncio das horas
Eu devaneio
De alma exaltada !

Ouço vozes
Entre luzes coloridas
... há paisagens vigilantes
Nessas madrugadas esquecidas !

Sinto que sou flor
Sob as carícias do orvalho:
Ele surpreendeu-me viçosa
... são seus
Todos meus beijos de amor !

Vejo
Melancolia saudosa
A cantarolar seus prantos ...
A aurora aconteceu ...
É toda voluptuosa !

Dá-me a mão, 
Ó madrugada!

Agasalha-me nos teus encantos !


Alvina Nunes Tzovenos
de Sonhos e Vivencias



EÇA DE QUEIROZ



“Não há ideia mais consoladora do que esta 
- que eu, e tu, e aquele monte, e o Sol que,
 agora, se esconde são moléculas do mesmo Todo, 
governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim.” 

―Eça de Queiroz

domingo, 21 de abril de 2013

SONETO



Hora lilás, da cor desta saudade
Que não me deixa mais o coração,
Hora em que a alma toda se me invade
Só de tristeza e de desolação ...

Hora em que eu lembro a minha pouca idade
E a minha tão cruel desilusão ...
Tudo se esvai na bruma da saudade,
Essa tão doce e triste cerração ...

Hora lias, da cor que me entristece,
Desta saudade que jamais esquece
Meu coração cansado de sofrer;

Hora em que eu vivo a vida já vivida,
Hora lilás, da cor da minha vida,
Pois é saudade só o meu viver.

Anrique Paço D’Arcos 
Poesias Completas

ETERNA CHUVA



Chove lá fora e a chuva apaga a poeira
Da minha estrada que não tem mais fim!
Seria bom que pela vida inteira
Essa chuva caísse sobre mim!

Sinto que a minha estrada sem palmeira,
Deserta, vasta e prolongada assim,
Impulsiona a minha alma sem canseira,
Para o mundo esquisito do senfim!

E eu marcho resoluto para a frente!
Cai-me a chuva nos ombros, de repente
Eu mais apresso a minha caminhada!

E assim prossigo nesse sonho eterno,
Sob a sentença de um constante inverno,
Sem promessas de sol na minha estrada!


Jansen Filho
In: Obras Completas

terça-feira, 16 de abril de 2013

CITAÇÃO



Devagarinho, a luz estende seus braços ao longe,
até onde os olhos, ainda meio adormecidos,
conseguem enxergar.
É de sonhos que despertam as árvores, as flores,
as aves! É de viagens por mundos impossíveis
que arribam as maravilhas desta realidade,
tão improvável como certa, tão imprevisível
como esperada, acessível como a utopia, 
desafio, jogo de contingências, porém,
promessa de imortalidades! (...)

Joaquim do Carmo
(in "Alvorada")

sábado, 13 de abril de 2013

MÚSICA



Noite perdida,
não te lamento:
embarco a vida

no pensamento,
busco a alvorada
do sonho isento,

puro e sem nada,
- rosa encarnada,
intacta, ao vento.

Noite perdida,
noite encontrada,
morta, vivida,

e ressuscitada...
(Asa da lua
quase parada,

mostra-me a sua
sombra escondida,
que continua

a minha vida
num chão profundo!
- raiz prendida

a um outro mundo.)
Rosa encarnada
do sonho isento,

muda alvorada
que o pensamento
deixa confiada

ao tempo lento...
Minha partida,
minha chegada,

é tudo vento...

Ai da alvorada!
Noite perdida,
noite encontrada...


Cecília Meireles,
in Viagem

quinta-feira, 11 de abril de 2013

FIM



O que eu perdi não foi um sonho bom,
não foi o fruto a embebedar meus lábios,
não foi uma canção de raro som,
nem a graça de alguns momentos sábios.

O que eu perdi, como quem perde uma outra infância,
foi o sentido do enternecimento,
foi a felicidade da ignorância, foi, em verdade, 
na minha carne e no meu pensamento,
a última rubra flor do fim da mocidade.

E dói – não esse gesto ausente, a que se apagam
as flores mais solares, mas uma hora, 
-flor de momento numa breve aurora-
hora longínqua, esquiva e para sempre morta,
em cuja escura, inacessível porta
noturnos olhos cegamente vagam.

Abgar Renault
de 'Obra Poética'

quarta-feira, 10 de abril de 2013

NAVEGANTE


e fica estabelecido
a cada manhã
o milagre da vida
como um jorro 
que nascesse das entranhas
da terra.

amealhar o tempo
o que pousa por sobre 
os telhados
como ave de bom agouro

como um girassol busca o sol
e um navegante solitário
busca os insondáveis segredos
do vento
assim
do outro lado do rio
um coração marca as horas
à espera do teu

Roseana Murray,
in Poesia Essencial