terça-feira, 2 de julho de 2013

MARIO QUINTANA



"Um dia de chuva é bom para a gente comprar
livros de poemas... 
Quem perguntar por que, de nada lhe adianta
comprar um livro de poemas."


Mario Quintana,
in Caderno H

quinta-feira, 27 de junho de 2013

O NEVOEIRO DA ESPERA COLADO NOS SONHOS



Desenrola-se em nossos olhos
a vertigem transparente
que agride o declínio do dia
quando a lua se encosta nos vidros
e temos o nevoeiro da espera colado nos sonhos.
Há muito que sabemos como é intocável a luz
do orvalho na raiz da mágoa.
Palavras em estilhaços flutuam sobre os móveis
como fantasmas ou como as fadas
da mais antiga infância.
Respiramos devagar o sopro errante do vento.

Graça Pires


domingo, 23 de junho de 2013

CANÇÃO



Eras um rosto
Na noite larga
De altas insônias
Iluminada.

Serás um dia
Vago retrato
De quem se diga:
“o antepassado”.

Eras um poema
Cujas palavras
Cresciam dentre
Mistério e lágrimas.

Serás silêncio,
Tempo sem rastro,
De esquecimentos
Atravessados.

Disso é que sofre
A amargurada
Flor da memória
Que ao vento fala


Cecília Meireles
In Retrato Natural

TRISTE ENCANTO




Triste encanto das tardes borralheiras
Que enchem de cinza o coração da gente!
A tarde lembra um passarinho doente
A pipilar os pingos das goteiras...
 
A tarde pobre fica, horas inteiras,
A espiar pelas vidraças, tristemente,
O crepitar das brasas na lareira...
Meu Deus...o frio que a pobrezinha sente!
 
Por que é que esses Arcanjos neurastênicos
Só usam névoa em seus efeitos cênicos?
Nenhum azul para te distraíres...
 
Ah, se eu pudesse, tardezinha pobre,
Eu pintava trezentos arco-íris
Nesse tristonho céu que nos encobre!... 
 
 
Mario Quintana,
in A rua dos cataventos
 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

SENTIMENTO DA NOITE



Com o fundo poder azul da noite,
que me clareia o coração,
por uma súbita nesga entre as nuvens
reluz o mundo das estrelas e da lua.


Em seu jazigo, lampeja minha alma
com redivivo ardor;
ao pálido perfume das esferas,
a noite dedilha a harpa.


A essa convocação, míngua a penúria
e a preocupação foge.
Mesmo que eu amanhã já não esteja
aqui – aqui estou hoje! 



Hermann Hesse
In: Andares

terça-feira, 18 de junho de 2013

A NOITE



Para que durmas, meu filho,
não há mais luz: é sol posto,
não há mais brilho que o orvalho,
mais brancura que meu rosto

Para que durmas, meu filho
o caminho emudeceu,
soluça apenas o rio,
nada existe senão eu.

Desfez-se a planície em névoa,
Tolheu-se o suspiro azul.
Pousou com dedos leves,
por sobre o mundo, a quietude.

Não embalei tão somente
ao meu filho com o meu canto:
ia a terra adormecendo
ao vai-vem desse acalanto.


Gabriela Mistral

segunda-feira, 17 de junho de 2013

SONETO DA AURORA



Quando a aurora se for, não mais seremos
o que ora somos, entre a Noite e o Dia,
cegos contempladores da magia
que no aquário da noite surpreendemos.

Somos flamas do instante, e em luz ardemos
presos eternamente ao que seria
o amor em nossos corpos, alegria
do perpétuo horizonte em que nascemos.

Das corolas do céu extraio a ardente
forma de redenção cativa à hora
em que ao puro lilá fui entregar-me.

Que somos nós senão a eternidade?
O amor transfigurou-se como a aurora
e se extinguiu após enfeitiçar-me.

Lêdo Ivo 
de Central Poética

domingo, 16 de junho de 2013

À ESTRELA



Até à estrela que reluz 
Há uma distância de trespasse.
Correu milênios sua luz
Para que enfim nos alcançasse

Talvez há muito já se fora
No longe azul extinto astro
Porém seus raios só agora
Ao nosso olhar mostram seu rastro.

A aura da estrela que morreu
No alto do céu se faz dar fé.
Era, e ninguém a percebeu,
Hoje que a vemos já não é.

Também assim a nossa dor
Na abissal noite se finda.
Porém a luz do extinto amor
Os nossos passos segue ainda.

Mihai Eminescu
in "Luar"

AO LUAR



Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha táctil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado…

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!


Augusto dos Anjos 
de "Eu"

CITAÇÃO



"...Hoje sou pastor de rios sentinela de 
colinas mirante das fortalezas nas ameias 
das neblinas...
É por mim que à noite os ventos vêm chorar
sobre as ruínas..."

Afonso Estebanez Stael

quarta-feira, 12 de junho de 2013

NOTURNO DO AMOR



Vem de manso...de leve...e suave e doce
Como um silêncio estático de prece...
Que a sua vida seja tal qual fosse
Apenas a saudade que me viesse...

Vem de manso...Na névoa da penumbra,
Faze um gesto litúrgico de benção!
A alta noite tristíssima deslumbra
Dos meus olhos nostálgicos, que pensam...

Sugere, mas não fales... Porque a frase
É vã, no amor...Mistério...Sonolência...
O esquecimento, quase...A morte, quase...
Intuições...Irrealismo...Inconsciência...


-Cecília Meireles- 
In:"Mar absoluto"



terça-feira, 11 de junho de 2013

DAI-ME SENHOR


Senhor, dai-me a inocência dos animais 
para que eu possa beber nesta manhã
a harmonia e a força das coisas naturais.

Apagai a máscara vazia e vã
de humanidade
apagai a vaidade,
para que eu me perca e me dissolva
na perfeição da manhã
e para que o vento me devolva
a parte de mim que vive
à beira dum jardim que só eu tive.


Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 4 de junho de 2013

PRÓLOGO



Estrelas que luzis na abóbada infinita,
Inquietamente, assim, como um olhar que fascina,
Vendo-vos palpitar, meu coração palpita,
Mordido de paixão por essa luz divina ...

Largos céus ideais, região diamantina,
Mirífico esplendor, ó pérola esquisita,
Quanta cobiça vã, que nunca se imagina,
Quanto furor enfim o ânimo me excita!

É impossível, pois, que eu amo unicamente,
A névoa que fugiu, a forma evanescente,
A sombra que se foi tal qual uma visão ...

E por isso também, por isso é que eu suponho
Que a vida, em suma, é um grande e extravagante Sonho,
E a Beleza não é mais do que uma ilusão!


Emiliano Perneta
in Ilusão & outros poemas

APARIÇÃO




Na penumbra
Se vivem reflexos de esperança, 
na pausa da incerteza!

Entre raios estelares,
Prenúncio de alva beleza,
Gritos doridos, cânticos,
Adoração e prece!

E, de uma voz doce,
Celestial, melodiosa,
Um chamamento de amor:

“dizei a todos que venham também...”!

E vieram... com fé,
E voltaram... em paz,
Procurando tal amor!


Joaquim do Carmo
em ‘Amanhecer Pelo Fim da Tarde”

domingo, 2 de junho de 2013

CREPÚSCULO



Resplandece o crepúsculo de jade,
de turquesa, de opala e cornalinas.
Pelos céus há pavões.Toda a cidade
é lilás com repuxos de anilinas.

As aves cor de gesso, à claridade
do acaso, ficam quase solferinas.
A cor douradas agora tudo invade,
tornando as passifloras ambarinas.

A natureza cintilante e amena
sardanapalescamente se decora,
brilhando mais que as asas da falena.

Todo o horizonte de lilás se enflora.
Traja galas de príncipe a açucena.
Não parece o poente mas a aurora.

Sosígenes Costa
In Poesia Completa

sexta-feira, 31 de maio de 2013

ENAMORADO DA VIDA



Eu sou um enamorado da Vida!
Para sentir melhor o céu na minha casa,
Plantei a minha casa entre o mar e a montanha.
Se as ondas vêm rugir a meus pés, a horas mortas,
A lua desce a mim numa carícia estranha.

Bebo as estrelas de mais perto. . . Abraço
Todo o corpo do céu num simples movimento.
E, quando chove, sinto a torrente das chuvas
Trazendo da montanha, em seu penacho de águas,
Frondes, ninhos, calhaus e pássaros ao vento.

Eu sou um enamorado da Vida!
Amo-a por tudo quanto ela me pode dar:
A água fresca da fonte, a carícia da sombra,
E até a calma silenciosa e mansa
Desse crepúsculo que baixa devagar.

- Olegário Mariano -

sábado, 25 de maio de 2013

SERENA



Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavidade
do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levitação
da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.


- Henriqueta Lisboa,
in "Azul profundo"


SAIO DO SONHO, DA NOITE, DO ABSURDO




Saio do sonho, da noite, do absurdo:
sou navegante que aborda o limite humano,
espuma breve.
Meus vestidos são de uma tristeza total:
da frágil superfície ao denso forro,
profundo mar.
Pergunto-me por que venho
e por que venho assim vestida:
- é dos lugares do sonho, da noite, do absurdo?
- é do limite humano a que abordo,
séria e inerme?
Entre os dias humanos
e a noite ex-humana
que mensageiro acaso somos?
A que destinatários?
em que linguagem?
que mensagem?
Ó noite, ó sonhos,ó absurdo
onde, no entanto, fluíamos, claríssimos!

Cecília Meireles
In: Poesia Completa

quarta-feira, 22 de maio de 2013

ANOITECER



A luz desmaia num fulgor d'aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu, que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora
Tenho bênçãos d'amor pra toda a gente!
Como eu sou pequenina e tão dolente
No amargo infinito desta hora!

Horas tristes que são o meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Meu áspero e intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...


Florbela Espanca

terça-feira, 21 de maio de 2013

AO LUAR



Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!


AUGUSTO DOS ANJOS


sexta-feira, 17 de maio de 2013

ANTÍQUA



Ali, entre os juncais,
a face de um deus esquecido
reverberava na tarde.
- Tua alma é antiga, junta-te a nós -
chamavam me os juncos, e tremiam
ao meu silêncio - um vento
que eriçava a memória da água.


Fernando Campanella

SEGREDO




Imagino
que saio a pescar a luz na tarde,
meu samburá a tiracolo,
antes que os deuses do dia
atrelem as carruagens
e o sol se incline
no abismo da memória.

Mudo as pedras.

Imagino, então,
Dona Lua,
por puro encanto,
até as franjas do infinito
tecendo um halo
e capturando estrelas
no encalço.

Imagino, imagino,
e deste imaginar me reincorporo,
chispo rudes pérolas:
alucino?

Fernando Campanella

terça-feira, 14 de maio de 2013

PENUMBRA



Na penumbra dos ombros é que tudo começa
quando subitamente só a noite nos vê
E nos abre uma porta nos aponta uma seta

para sermos de novo quem deixámos de ser


DAVID MOURÃO-FERREIRA,
 in OBRA POÉTICA

segunda-feira, 13 de maio de 2013

RECOLHIDO A SÓS




Recolhido a sós, no silêncio dos astros,
absolutamente nada pertubará a noite,
parado o tempo, despojado o pensamento,
Nem um só tremor agitará o seu vazio.

Eu queria que o instante demorasse horas,
que meus olhos se queimassem
com o fogo das estrelas.

Manuel Filipe,
in "Tempo de Cinza"

quarta-feira, 1 de maio de 2013

SOLIDÃO



Imensas noites de inverno,
com frias montanhas mudas,
e o mar negro, mais eterno,
mais terrível, mais profundo.
Este rugido das águas
é uma tristeza sem forma:
sobe rochas, desce fráguas,
vem para o mundo, e retorna...

E a névoa desmancha os astros,
e o vento gira as areias:
nem pelo chão ficam rastros
nem, pelo silêncio, estrêlas.

A noite fecha seus lábios
— terra e céu — guardado nome.
E os seus longos sonhos sábios
geram a vida dos homens.

Geram os olhos incertos,
por onde descem os rios
que andam nos campos abertos
da claridade do dia.


Cecília Meireles 
in "Poesia Completas"


terça-feira, 30 de abril de 2013

SERENATA



Repara na canção tardia
que timidamente se eleva,
num arrulho de fonte fria.
O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.
Repara na canção tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.
É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.
Repara na canção tardia
que por sobre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.
E nessas letras tão pequenas
o universo inteiro perdura.
E o tempo suspira na altura
por eternidades serenas.

Cecília Meireles



segunda-feira, 29 de abril de 2013

IMPRESSIONISTA




Uma ocasião, 
meu pai pintou a casa toda 
de alaranjado brilhante. 
Por muito tempo moramos numa casa, 
como ele mesmo dizia, 
constantemente amanhecendo. 
 
Adélia Prado

sexta-feira, 26 de abril de 2013

MADRUGADA




E de dentro dela
Abraçada
Ao silêncio das horas
Eu devaneio
De alma exaltada !

Ouço vozes
Entre luzes coloridas
... há paisagens vigilantes
Nessas madrugadas esquecidas !

Sinto que sou flor
Sob as carícias do orvalho:
Ele surpreendeu-me viçosa
... são seus
Todos meus beijos de amor !

Vejo
Melancolia saudosa
A cantarolar seus prantos ...
A aurora aconteceu ...
É toda voluptuosa !

Dá-me a mão, 
Ó madrugada!

Agasalha-me nos teus encantos !


Alvina Nunes Tzovenos
de Sonhos e Vivencias



EÇA DE QUEIROZ



“Não há ideia mais consoladora do que esta 
- que eu, e tu, e aquele monte, e o Sol que,
 agora, se esconde são moléculas do mesmo Todo, 
governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim.” 

―Eça de Queiroz

domingo, 21 de abril de 2013

SONETO



Hora lilás, da cor desta saudade
Que não me deixa mais o coração,
Hora em que a alma toda se me invade
Só de tristeza e de desolação ...

Hora em que eu lembro a minha pouca idade
E a minha tão cruel desilusão ...
Tudo se esvai na bruma da saudade,
Essa tão doce e triste cerração ...

Hora lias, da cor que me entristece,
Desta saudade que jamais esquece
Meu coração cansado de sofrer;

Hora em que eu vivo a vida já vivida,
Hora lilás, da cor da minha vida,
Pois é saudade só o meu viver.

Anrique Paço D’Arcos 
Poesias Completas

ETERNA CHUVA



Chove lá fora e a chuva apaga a poeira
Da minha estrada que não tem mais fim!
Seria bom que pela vida inteira
Essa chuva caísse sobre mim!

Sinto que a minha estrada sem palmeira,
Deserta, vasta e prolongada assim,
Impulsiona a minha alma sem canseira,
Para o mundo esquisito do senfim!

E eu marcho resoluto para a frente!
Cai-me a chuva nos ombros, de repente
Eu mais apresso a minha caminhada!

E assim prossigo nesse sonho eterno,
Sob a sentença de um constante inverno,
Sem promessas de sol na minha estrada!


Jansen Filho
In: Obras Completas

terça-feira, 16 de abril de 2013

CITAÇÃO



Devagarinho, a luz estende seus braços ao longe,
até onde os olhos, ainda meio adormecidos,
conseguem enxergar.
É de sonhos que despertam as árvores, as flores,
as aves! É de viagens por mundos impossíveis
que arribam as maravilhas desta realidade,
tão improvável como certa, tão imprevisível
como esperada, acessível como a utopia, 
desafio, jogo de contingências, porém,
promessa de imortalidades! (...)

Joaquim do Carmo
(in "Alvorada")

sábado, 13 de abril de 2013

MÚSICA



Noite perdida,
não te lamento:
embarco a vida

no pensamento,
busco a alvorada
do sonho isento,

puro e sem nada,
- rosa encarnada,
intacta, ao vento.

Noite perdida,
noite encontrada,
morta, vivida,

e ressuscitada...
(Asa da lua
quase parada,

mostra-me a sua
sombra escondida,
que continua

a minha vida
num chão profundo!
- raiz prendida

a um outro mundo.)
Rosa encarnada
do sonho isento,

muda alvorada
que o pensamento
deixa confiada

ao tempo lento...
Minha partida,
minha chegada,

é tudo vento...

Ai da alvorada!
Noite perdida,
noite encontrada...


Cecília Meireles,
in Viagem

quinta-feira, 11 de abril de 2013

FIM



O que eu perdi não foi um sonho bom,
não foi o fruto a embebedar meus lábios,
não foi uma canção de raro som,
nem a graça de alguns momentos sábios.

O que eu perdi, como quem perde uma outra infância,
foi o sentido do enternecimento,
foi a felicidade da ignorância, foi, em verdade, 
na minha carne e no meu pensamento,
a última rubra flor do fim da mocidade.

E dói – não esse gesto ausente, a que se apagam
as flores mais solares, mas uma hora, 
-flor de momento numa breve aurora-
hora longínqua, esquiva e para sempre morta,
em cuja escura, inacessível porta
noturnos olhos cegamente vagam.

Abgar Renault
de 'Obra Poética'

quarta-feira, 10 de abril de 2013

NAVEGANTE


e fica estabelecido
a cada manhã
o milagre da vida
como um jorro 
que nascesse das entranhas
da terra.

amealhar o tempo
o que pousa por sobre 
os telhados
como ave de bom agouro

como um girassol busca o sol
e um navegante solitário
busca os insondáveis segredos
do vento
assim
do outro lado do rio
um coração marca as horas
à espera do teu

Roseana Murray,
in Poesia Essencial

sexta-feira, 5 de abril de 2013

TARDE SOLAR



Quando eu partir, quando eu partir de novo
A alma e o corpo unidos,
Num último e derradeiro esforço de criação;
Quando eu partir...

Como se um outro ser nascesse
De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril,
E sem que o milagre se abrisse
As janelas da vida. . .

Então pertencer-me-ei.
Na minha solidão, as minhas lágrimas
Hão-de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
E eu serei o senhor da minha própria liberdade.

Nada ficará no lugar que eu ocupei.
O último adeus virá daquelas mãos abertas
Que hão-de abençoar um mundo renegado
No silêncio de uma noite em que um navio
Me levará para sempre.

Mas ali
Hei-de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei-de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre.

Ruy Cinatti 
In "Nós Não Somos deste Mundo"

quinta-feira, 4 de abril de 2013

CREPÚSCULO


-Estrelas não!
Pedaços de almas tristes
Que a noite acende pra enfeitar o céu.

Colombo de Sousa
In: Estágio



segunda-feira, 1 de abril de 2013

POETA



Venho do fundo das Eras
Quando o mundo mal nascia...
Sou tão antigo e tão novo
Como a luz de cada dia!  

Mário Quintana

quinta-feira, 28 de março de 2013

ESPANTO POR ESPANTO



a vida é isso?
essa espera de auroras
boreais
estar a sós com seus
pensamentos
falcões amestrados
em direção do passado
ao futuro
ao fundo duro
dos abismos?

O tempo não se mexe
penhasco imutável
no oceano das horas
nós é que nos vamos
estranhas marionetes
sem rumo

então a vida é isso
segundo por segundo
estrela por estrela
espanto por espanto

Roseana Murray
In Poesia Essencial.



quarta-feira, 27 de março de 2013

CREPÚSCULO DE ABRIL



Longa pincelada de cinábrio, no poente,
sublinha os nimbos gris.

A púrpura veludosa do amaranto
veste os jardins do outono.

Dorme a névoa dos vales.
No coração transido, a noite desce.

Helena Kolody

sábado, 23 de março de 2013

NO MEU JARDIM



No meu jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive...

E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!

O recuado Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino:

Este, de ser menino
Ao pé de ti...

Miguel Torga

sexta-feira, 22 de março de 2013

CREPÚSCULO DE OUTONO



O crepúsculo cai, manso como uma benção.
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito...
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
As feridas que a vida abriu em cada peito.


O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.


Os pinheiros porém viçam, e serão breve
Todo o verde que a vista espairecendo vejas,
Mais negros sobre a alvura unânime da neve,
Altos e espirituais como flechas de igrejas.


Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio
Do rio, e isso parece a voz da solidão.
E essa voz enche o vale...o horizonte purpúreo...
Consoladora como um divino perdão.


O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,
Flocos, que a luz do poente extática semelha
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.


A sombra casa os sons numa grave harmonia.
E tamanha esperança e uma tão grande paz
Avultam do clarão que cinge a serrania,
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.

Manuel Bandeira

quinta-feira, 21 de março de 2013

LUZ DA ALVORADA



Pátria, infancia, hora da manhã da vida
muitas vezes perdida e deslembrada:
tardia mensagem me vem de ti,
a reflorir do que mais fundo estava
soterrado no âmago de minha alma
- ó doce luz, fonte ressuscitada!

Entre o outrora e agora, a vida toda
que se havia por orgulhosa e rica,
não conta mais: volto a escutar, absorto,
o tão antigo sempre e sempre novo
cantar da fonte dos contos de fadas,
infantis cantinelas olvidadas.

Acima de tudo, com teu clarão
vais removendo o pó e a confusão
e o esforço da ambição irrealizada
- ó fonte límpida, ó luz da alvorada!

Hermann Hesse
In Andares 

EMILY DICKINSON


A manhã se dá a todos,
A noite, para alguns poucos;
A raros afortunados,
A luz da madrugada.

Emily Dickinson
In Poemas  Escolhidos

segunda-feira, 18 de março de 2013

ENCANTAMENTO



A tarde jogou os seus sete véus luminosos
sobre a montanha,
e ficou toda nua dançando
com sombras de crepúsculo
a escorrerem-lhe, suaves, pela pele dourada...
...e ficou toda nua dançando
na campina
ao som da harpa encantada do silêncio...

Tasso da Silveira,
in As Imagens Acesas:

sábado, 16 de março de 2013

HORA GRAVE



Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


Rainer Maria Rilke

quinta-feira, 14 de março de 2013

ESVAZIAMENTO



Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem
estrelas. 

Mario Quintana
In: Na volta da Esquina

sexta-feira, 8 de março de 2013

VISITA



Na escassa penumbra da tarde,
sonho.
Vêm me visitar as fadigas do dia,
os defuntos do ano, as lembranças da década,
como uma procissão dos mortos daquela aldeia
perdida lá no horizonte.

Este é o mesmo sol, impregnado de miragens
o mesmo céu que presenças ocultas dissimulam
o mesmo céu temido daqueles que tratam 
com os que se foram

Eis que a mim vêm os meus mortos.

Léopold Sédar Senghor

quarta-feira, 6 de março de 2013

ESVAZIAMENTO



Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem
estrelas. 

Mario Quintana
In: 'Na volta da Esquina'

sexta-feira, 1 de março de 2013

ADORMECENDO




Em catedrais gigantescas
um grito ecoa
. . . é a hora da paz!

. . . e o silencio é renuncia
ao dia que se desfaz.

O sol cansou-se de amar,
e a noite asilada em meu seio
vem bailar com o repousar.

Cerro as pálpebras,
. . . janelas frias. Revivo
Um féretro solene. Festivo.

Transponho fronteiras,
meu mundo não é bisonho
tem cores, de um viver risonho.

E vestida de flores
buscando esquivas primaveras
sob sóis amores.
Eu só tenho um desejo:
- o de nunca acordar!


Alviana Tzovenos