domingo, 2 de junho de 2013

CREPÚSCULO



Resplandece o crepúsculo de jade,
de turquesa, de opala e cornalinas.
Pelos céus há pavões.Toda a cidade
é lilás com repuxos de anilinas.

As aves cor de gesso, à claridade
do acaso, ficam quase solferinas.
A cor douradas agora tudo invade,
tornando as passifloras ambarinas.

A natureza cintilante e amena
sardanapalescamente se decora,
brilhando mais que as asas da falena.

Todo o horizonte de lilás se enflora.
Traja galas de príncipe a açucena.
Não parece o poente mas a aurora.

Sosígenes Costa
In Poesia Completa

sexta-feira, 31 de maio de 2013

ENAMORADO DA VIDA



Eu sou um enamorado da Vida!
Para sentir melhor o céu na minha casa,
Plantei a minha casa entre o mar e a montanha.
Se as ondas vêm rugir a meus pés, a horas mortas,
A lua desce a mim numa carícia estranha.

Bebo as estrelas de mais perto. . . Abraço
Todo o corpo do céu num simples movimento.
E, quando chove, sinto a torrente das chuvas
Trazendo da montanha, em seu penacho de águas,
Frondes, ninhos, calhaus e pássaros ao vento.

Eu sou um enamorado da Vida!
Amo-a por tudo quanto ela me pode dar:
A água fresca da fonte, a carícia da sombra,
E até a calma silenciosa e mansa
Desse crepúsculo que baixa devagar.

- Olegário Mariano -

sábado, 25 de maio de 2013

SERENA



Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavidade
do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levitação
da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.


- Henriqueta Lisboa,
in "Azul profundo"


SAIO DO SONHO, DA NOITE, DO ABSURDO




Saio do sonho, da noite, do absurdo:
sou navegante que aborda o limite humano,
espuma breve.
Meus vestidos são de uma tristeza total:
da frágil superfície ao denso forro,
profundo mar.
Pergunto-me por que venho
e por que venho assim vestida:
- é dos lugares do sonho, da noite, do absurdo?
- é do limite humano a que abordo,
séria e inerme?
Entre os dias humanos
e a noite ex-humana
que mensageiro acaso somos?
A que destinatários?
em que linguagem?
que mensagem?
Ó noite, ó sonhos,ó absurdo
onde, no entanto, fluíamos, claríssimos!

Cecília Meireles
In: Poesia Completa

quarta-feira, 22 de maio de 2013

ANOITECER



A luz desmaia num fulgor d'aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu, que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora
Tenho bênçãos d'amor pra toda a gente!
Como eu sou pequenina e tão dolente
No amargo infinito desta hora!

Horas tristes que são o meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Meu áspero e intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...


Florbela Espanca

terça-feira, 21 de maio de 2013

AO LUAR



Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!


AUGUSTO DOS ANJOS


sexta-feira, 17 de maio de 2013

ANTÍQUA



Ali, entre os juncais,
a face de um deus esquecido
reverberava na tarde.
- Tua alma é antiga, junta-te a nós -
chamavam me os juncos, e tremiam
ao meu silêncio - um vento
que eriçava a memória da água.


Fernando Campanella

SEGREDO




Imagino
que saio a pescar a luz na tarde,
meu samburá a tiracolo,
antes que os deuses do dia
atrelem as carruagens
e o sol se incline
no abismo da memória.

Mudo as pedras.

Imagino, então,
Dona Lua,
por puro encanto,
até as franjas do infinito
tecendo um halo
e capturando estrelas
no encalço.

Imagino, imagino,
e deste imaginar me reincorporo,
chispo rudes pérolas:
alucino?

Fernando Campanella

terça-feira, 14 de maio de 2013

PENUMBRA



Na penumbra dos ombros é que tudo começa
quando subitamente só a noite nos vê
E nos abre uma porta nos aponta uma seta

para sermos de novo quem deixámos de ser


DAVID MOURÃO-FERREIRA,
 in OBRA POÉTICA

segunda-feira, 13 de maio de 2013

RECOLHIDO A SÓS




Recolhido a sós, no silêncio dos astros,
absolutamente nada pertubará a noite,
parado o tempo, despojado o pensamento,
Nem um só tremor agitará o seu vazio.

Eu queria que o instante demorasse horas,
que meus olhos se queimassem
com o fogo das estrelas.

Manuel Filipe,
in "Tempo de Cinza"

quarta-feira, 1 de maio de 2013

SOLIDÃO



Imensas noites de inverno,
com frias montanhas mudas,
e o mar negro, mais eterno,
mais terrível, mais profundo.
Este rugido das águas
é uma tristeza sem forma:
sobe rochas, desce fráguas,
vem para o mundo, e retorna...

E a névoa desmancha os astros,
e o vento gira as areias:
nem pelo chão ficam rastros
nem, pelo silêncio, estrêlas.

A noite fecha seus lábios
— terra e céu — guardado nome.
E os seus longos sonhos sábios
geram a vida dos homens.

Geram os olhos incertos,
por onde descem os rios
que andam nos campos abertos
da claridade do dia.


Cecília Meireles 
in "Poesia Completas"


terça-feira, 30 de abril de 2013

SERENATA



Repara na canção tardia
que timidamente se eleva,
num arrulho de fonte fria.
O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.
Repara na canção tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.
É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.
Repara na canção tardia
que por sobre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.
E nessas letras tão pequenas
o universo inteiro perdura.
E o tempo suspira na altura
por eternidades serenas.

Cecília Meireles



segunda-feira, 29 de abril de 2013

IMPRESSIONISTA




Uma ocasião, 
meu pai pintou a casa toda 
de alaranjado brilhante. 
Por muito tempo moramos numa casa, 
como ele mesmo dizia, 
constantemente amanhecendo. 
 
Adélia Prado

sexta-feira, 26 de abril de 2013

MADRUGADA




E de dentro dela
Abraçada
Ao silêncio das horas
Eu devaneio
De alma exaltada !

Ouço vozes
Entre luzes coloridas
... há paisagens vigilantes
Nessas madrugadas esquecidas !

Sinto que sou flor
Sob as carícias do orvalho:
Ele surpreendeu-me viçosa
... são seus
Todos meus beijos de amor !

Vejo
Melancolia saudosa
A cantarolar seus prantos ...
A aurora aconteceu ...
É toda voluptuosa !

Dá-me a mão, 
Ó madrugada!

Agasalha-me nos teus encantos !


Alvina Nunes Tzovenos
de Sonhos e Vivencias



EÇA DE QUEIROZ



“Não há ideia mais consoladora do que esta 
- que eu, e tu, e aquele monte, e o Sol que,
 agora, se esconde são moléculas do mesmo Todo, 
governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim.” 

―Eça de Queiroz

domingo, 21 de abril de 2013

SONETO



Hora lilás, da cor desta saudade
Que não me deixa mais o coração,
Hora em que a alma toda se me invade
Só de tristeza e de desolação ...

Hora em que eu lembro a minha pouca idade
E a minha tão cruel desilusão ...
Tudo se esvai na bruma da saudade,
Essa tão doce e triste cerração ...

Hora lias, da cor que me entristece,
Desta saudade que jamais esquece
Meu coração cansado de sofrer;

Hora em que eu vivo a vida já vivida,
Hora lilás, da cor da minha vida,
Pois é saudade só o meu viver.

Anrique Paço D’Arcos 
Poesias Completas

ETERNA CHUVA



Chove lá fora e a chuva apaga a poeira
Da minha estrada que não tem mais fim!
Seria bom que pela vida inteira
Essa chuva caísse sobre mim!

Sinto que a minha estrada sem palmeira,
Deserta, vasta e prolongada assim,
Impulsiona a minha alma sem canseira,
Para o mundo esquisito do senfim!

E eu marcho resoluto para a frente!
Cai-me a chuva nos ombros, de repente
Eu mais apresso a minha caminhada!

E assim prossigo nesse sonho eterno,
Sob a sentença de um constante inverno,
Sem promessas de sol na minha estrada!


Jansen Filho
In: Obras Completas

terça-feira, 16 de abril de 2013

CITAÇÃO



Devagarinho, a luz estende seus braços ao longe,
até onde os olhos, ainda meio adormecidos,
conseguem enxergar.
É de sonhos que despertam as árvores, as flores,
as aves! É de viagens por mundos impossíveis
que arribam as maravilhas desta realidade,
tão improvável como certa, tão imprevisível
como esperada, acessível como a utopia, 
desafio, jogo de contingências, porém,
promessa de imortalidades! (...)

Joaquim do Carmo
(in "Alvorada")

sábado, 13 de abril de 2013

MÚSICA



Noite perdida,
não te lamento:
embarco a vida

no pensamento,
busco a alvorada
do sonho isento,

puro e sem nada,
- rosa encarnada,
intacta, ao vento.

Noite perdida,
noite encontrada,
morta, vivida,

e ressuscitada...
(Asa da lua
quase parada,

mostra-me a sua
sombra escondida,
que continua

a minha vida
num chão profundo!
- raiz prendida

a um outro mundo.)
Rosa encarnada
do sonho isento,

muda alvorada
que o pensamento
deixa confiada

ao tempo lento...
Minha partida,
minha chegada,

é tudo vento...

Ai da alvorada!
Noite perdida,
noite encontrada...


Cecília Meireles,
in Viagem

quinta-feira, 11 de abril de 2013

FIM



O que eu perdi não foi um sonho bom,
não foi o fruto a embebedar meus lábios,
não foi uma canção de raro som,
nem a graça de alguns momentos sábios.

O que eu perdi, como quem perde uma outra infância,
foi o sentido do enternecimento,
foi a felicidade da ignorância, foi, em verdade, 
na minha carne e no meu pensamento,
a última rubra flor do fim da mocidade.

E dói – não esse gesto ausente, a que se apagam
as flores mais solares, mas uma hora, 
-flor de momento numa breve aurora-
hora longínqua, esquiva e para sempre morta,
em cuja escura, inacessível porta
noturnos olhos cegamente vagam.

Abgar Renault
de 'Obra Poética'

quarta-feira, 10 de abril de 2013

NAVEGANTE


e fica estabelecido
a cada manhã
o milagre da vida
como um jorro 
que nascesse das entranhas
da terra.

amealhar o tempo
o que pousa por sobre 
os telhados
como ave de bom agouro

como um girassol busca o sol
e um navegante solitário
busca os insondáveis segredos
do vento
assim
do outro lado do rio
um coração marca as horas
à espera do teu

Roseana Murray,
in Poesia Essencial

sexta-feira, 5 de abril de 2013

TARDE SOLAR



Quando eu partir, quando eu partir de novo
A alma e o corpo unidos,
Num último e derradeiro esforço de criação;
Quando eu partir...

Como se um outro ser nascesse
De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril,
E sem que o milagre se abrisse
As janelas da vida. . .

Então pertencer-me-ei.
Na minha solidão, as minhas lágrimas
Hão-de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
E eu serei o senhor da minha própria liberdade.

Nada ficará no lugar que eu ocupei.
O último adeus virá daquelas mãos abertas
Que hão-de abençoar um mundo renegado
No silêncio de uma noite em que um navio
Me levará para sempre.

Mas ali
Hei-de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei-de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre.

Ruy Cinatti 
In "Nós Não Somos deste Mundo"

quinta-feira, 4 de abril de 2013

CREPÚSCULO


-Estrelas não!
Pedaços de almas tristes
Que a noite acende pra enfeitar o céu.

Colombo de Sousa
In: Estágio



segunda-feira, 1 de abril de 2013

POETA



Venho do fundo das Eras
Quando o mundo mal nascia...
Sou tão antigo e tão novo
Como a luz de cada dia!  

Mário Quintana

quinta-feira, 28 de março de 2013

ESPANTO POR ESPANTO



a vida é isso?
essa espera de auroras
boreais
estar a sós com seus
pensamentos
falcões amestrados
em direção do passado
ao futuro
ao fundo duro
dos abismos?

O tempo não se mexe
penhasco imutável
no oceano das horas
nós é que nos vamos
estranhas marionetes
sem rumo

então a vida é isso
segundo por segundo
estrela por estrela
espanto por espanto

Roseana Murray
In Poesia Essencial.



quarta-feira, 27 de março de 2013

CREPÚSCULO DE ABRIL



Longa pincelada de cinábrio, no poente,
sublinha os nimbos gris.

A púrpura veludosa do amaranto
veste os jardins do outono.

Dorme a névoa dos vales.
No coração transido, a noite desce.

Helena Kolody

sábado, 23 de março de 2013

NO MEU JARDIM



No meu jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive...

E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!

O recuado Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino:

Este, de ser menino
Ao pé de ti...

Miguel Torga

sexta-feira, 22 de março de 2013

CREPÚSCULO DE OUTONO



O crepúsculo cai, manso como uma benção.
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito...
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
As feridas que a vida abriu em cada peito.


O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.


Os pinheiros porém viçam, e serão breve
Todo o verde que a vista espairecendo vejas,
Mais negros sobre a alvura unânime da neve,
Altos e espirituais como flechas de igrejas.


Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio
Do rio, e isso parece a voz da solidão.
E essa voz enche o vale...o horizonte purpúreo...
Consoladora como um divino perdão.


O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,
Flocos, que a luz do poente extática semelha
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.


A sombra casa os sons numa grave harmonia.
E tamanha esperança e uma tão grande paz
Avultam do clarão que cinge a serrania,
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.

Manuel Bandeira

quinta-feira, 21 de março de 2013

LUZ DA ALVORADA



Pátria, infancia, hora da manhã da vida
muitas vezes perdida e deslembrada:
tardia mensagem me vem de ti,
a reflorir do que mais fundo estava
soterrado no âmago de minha alma
- ó doce luz, fonte ressuscitada!

Entre o outrora e agora, a vida toda
que se havia por orgulhosa e rica,
não conta mais: volto a escutar, absorto,
o tão antigo sempre e sempre novo
cantar da fonte dos contos de fadas,
infantis cantinelas olvidadas.

Acima de tudo, com teu clarão
vais removendo o pó e a confusão
e o esforço da ambição irrealizada
- ó fonte límpida, ó luz da alvorada!

Hermann Hesse
In Andares 

EMILY DICKINSON


A manhã se dá a todos,
A noite, para alguns poucos;
A raros afortunados,
A luz da madrugada.

Emily Dickinson
In Poemas  Escolhidos

segunda-feira, 18 de março de 2013

ENCANTAMENTO



A tarde jogou os seus sete véus luminosos
sobre a montanha,
e ficou toda nua dançando
com sombras de crepúsculo
a escorrerem-lhe, suaves, pela pele dourada...
...e ficou toda nua dançando
na campina
ao som da harpa encantada do silêncio...

Tasso da Silveira,
in As Imagens Acesas:

sábado, 16 de março de 2013

HORA GRAVE



Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


Rainer Maria Rilke

quinta-feira, 14 de março de 2013

ESVAZIAMENTO



Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem
estrelas. 

Mario Quintana
In: Na volta da Esquina

sexta-feira, 8 de março de 2013

VISITA



Na escassa penumbra da tarde,
sonho.
Vêm me visitar as fadigas do dia,
os defuntos do ano, as lembranças da década,
como uma procissão dos mortos daquela aldeia
perdida lá no horizonte.

Este é o mesmo sol, impregnado de miragens
o mesmo céu que presenças ocultas dissimulam
o mesmo céu temido daqueles que tratam 
com os que se foram

Eis que a mim vêm os meus mortos.

Léopold Sédar Senghor

quarta-feira, 6 de março de 2013

ESVAZIAMENTO



Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem
estrelas. 

Mario Quintana
In: 'Na volta da Esquina'

sexta-feira, 1 de março de 2013

ADORMECENDO




Em catedrais gigantescas
um grito ecoa
. . . é a hora da paz!

. . . e o silencio é renuncia
ao dia que se desfaz.

O sol cansou-se de amar,
e a noite asilada em meu seio
vem bailar com o repousar.

Cerro as pálpebras,
. . . janelas frias. Revivo
Um féretro solene. Festivo.

Transponho fronteiras,
meu mundo não é bisonho
tem cores, de um viver risonho.

E vestida de flores
buscando esquivas primaveras
sob sóis amores.
Eu só tenho um desejo:
- o de nunca acordar!


Alviana Tzovenos

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

BELO BELO




Belo belo belo 
Tenho tudo quanto quero, 
Tenho o fogo de constelações extintas há milênios, 
E o risco brevíssimo — que foi? Passou — de tantas estrelas cadentes. 

A aurora apaga-se, 
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora. 

O dia vem, e dia a dentro 
Continuo a possuir o segredo grande da noite. 

Belo belo belo, 
Tenho tudo quanto quero. 

Não quero o êxtase nem os tormentos, 
Não quero o que a terra só dá com trabalho. 

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis: 
Os anjos não compreendem os homens. 

Não quero amar, 
Não quero ser amado. 
Não quero combater, 
Não quero ser soldado. 

— Quero a delicia de poder sentir as coisas mais simples. 

- Manuel Bandeira, 
em "Lira dos cinquent’anos",

AO CREPÚSCULO



O crepúsculo cai, tão manso e benfazejo 
Que me adoça o pesar de estar em terra estranha. 
E enquanto o ângelus abençoa o lugarejo, 
Eu penso em ti, apaziguado e sem desejo, 
Fitando no horizonte a linha da montanha. 

A montanha é tranqüila e forte, e grande e boa. 
Ela afaga o meu sonho. E alegra-me pensar 
(Tanto a saudade a um tempo acalenta e magoa!) 
Que tu, na doce paz da tarde que se escoa, 
Teces o mesmo sonho, ouvindo e vendo o mar. 

Embalada na voz do grande solitário, 
Tu mortificarás teu casto coração 
Na dor de revocar o noivado precário. 
(Ah, por que te confiei o meu desejo vário? 
Por que me desvendaste a tua sedução?) 

Se nos aparta o espaço, o tempo — esse nos liga. 
A lembrança é no amor a cadeia mais pura. 
Tu tens o grande Amigo e eu tenho a grande Amiga: 
O mar segredará tudo o quanto eu te diga, 
E a montanha, dir-me-á tua imensa ternura.

- Manuel Bandeira, 
em "A cinza das horas",

PAISAGEM NOTURNA



A sombra imensa, a noite infinita enche o vale . . .
E lá do fundo vem a voz
Humilde e lamentosa
Dos pássaros da treva. Em nós,
— Em noss'alma criminosa,
O pavor se insinua . . . 
Um carneiro bale.
Ouvem-se pios funerais.
Um como grande e doloroso arquejo
Corta a amplidão que a amplidão continua . . .
E cadentes, metálicos, pontuais,
Os tanoeiros do brejo,
— Os vigias da noite silenciosa,
Malham nos aguaçais.

Pouco a pouco, porém, a muralha de treva
Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça
Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleva
A sombria massa 
Das serranias.

O plenilúnio via romper ... Já da penumbra
Lentamente reslumbra
A paisagem de grandes árvores dormentes.
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias,
Tintas deliqüescentes
Mancham para o levante as nuvens langorosas.

Enfim, cheia, serena, pura,
Como uma hóstia de luz erguida no horizonte, 
Fazendo levantar a fronte 
Dos poetas e das almas amorosas,
Dissipando o temor nas consciências medrosas 
E frustrando a emboscada a espiar na noite escura,
— A Lua
Assoma à crista da montanha.
Em sua luz se banha
A solidão cheia de vozes que segredam . . .

Em voluptuoso espreguiçar de forma nua
As névoas enveredam 
No vale. São como alvas, longas charpas
Suspensas no ar ao longe das escarpas.
Lembram os rebanhos de carneiros 
Quando, 
Fugindo ao sol a pino,
Buscam oitões, adros hospitaleiros
E lá quedam tranqüilos ruminando . . . 
Assim a névoa azul paira sonhando . . .
As estrelas sorriem de escutar
As baladas atrozes
Dos sapos. 
                                           E o luar úmido . . . fino . . .
Amávico . . . tutelar . . .
Anima e transfigura a solidão cheia de vozes . . ."

- Manuel Bandeira


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

CANTATA VESPERAL



CERRAI-VOS, OLHOS, que é tarde, e longe,
E acabou-se a festa a festa do mundo:
Começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
Perdem-se; e vão fugindo em mármore
Cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
Nem há mais vozes que se entendam
Nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
Sem esperanças de endereços.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

domingo, 24 de fevereiro de 2013

POEMA DA TARDE



 A tarde move-se entre os galhos das minhas mãos.
Uma estrela aparece no fim do meu sangue,
Minha nuca recebeu o hálito fino de uma rosa branca.
Todas as formas servem-se mutuamente,
Umas em pé, outras se ajoelhando, outras sentadas,
Regando o coração e a cabeça do homem:

E dentre os primeiros véus surge Maria da Saudade
Que, sem querer, canta.


Murilo Mendes

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

POEMETO MATINAL



O ar da manhã beija a minha face
A minha alma beija o ar leve da manhã
e olha a paisagem longíngua da cidade
que branqueja alegremente na distância
e sorri humanamente
um sorriso branco no caiado das casas
que montam os flancos das colunas azuis
e espiam pelos olhos escancarados das janelas.

7 horas. Vai começar a função.
O despertador das sirenes fura liricamente
o silêncio doirado da manhã.
Parece que a vida acorda agora pela primeira vez
e esfrega os olhos deslumbradamente...

Meu Ford fordeja dentro da manhã
e sobe a rua velha do meu bairro,
arquejando, bufando, fumando gasolina.
Meu Ford a cabriolar nos buracos da rua descalça
é um cabrito todo preto a cabriolar, prodigioso.
O ar leve beija o radiador
e beija a minha face.

A beleza de todo o meu ser
na doirada névoa desta manhã!

Abgar Renault


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

TARDE



Esta é uma tarde completa:
mil cacos de solidão.
Eu conto
eu comparo
eu formo
eu junto.
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento fixar este instante,
este fragmento de tempo, dissecá-lo completamente.
Tenho os olhos bem abertos.
Sinto o áspero e louco toque
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco.

vasant abaji dahake
(índia, n. 1942)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

UM SORRISO



Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moitas. A umidade
aveludada de musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.

A viração do oceano acariciava o rosto
como incorpóreas mãos.Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto...

Ao fundo do mar batia a crista dos escolhos...
Depois o céu...e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos...

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...

Manuel Bandeira
In A Cinza das Horas

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CREPÚSCULO



Na hora em que o dia
não é mais dia
em que a noite não
é noite ainda
tudo é magia
e o céu parece
veludo furta cor
escorrendo
das mãos vazias.

Roseana Murray,
Poemas de céu

domingo, 10 de fevereiro de 2013

MIA COUTO


"Eis o que eu aprendi
nesses vales
onde se afundam os poentes:
afinal, tudo são luzes
e a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo,
nós somos suas breves incandescências."


Mia Couto,
 In: Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

NOITE ESCANDINAVA


Num instante,
o tecto se torna céu
e o escuro se torna leito.
A noite é escassa
para tanta saudade.

MIA COUTO,
in "Tradutor de chuvas"

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

MANHÃ NO CAMPO



Estendo os olhos pelo prado afora:
Verdura e flores é o que a vista alcança...
— Bendito oásis onde o olhar descansa
Quando saudades do Passado chora.

Escuto ao longe uma canção sonora.
Voz de mulher ou, antes, de criança
Entoa o hino branco da Esperança,
Hino das aves ao nascer da Aurora.

Por toda parte risos e fulgores
E a Natureza desbrochando em flores,
Iluminada pelo Sol risonho,

Recorda um'alma diluída em prece,
Um coração feliz que inda estremece
À luz sagrada do primeiro sonho!

Auta de Souza

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ENCONTRO DE DUAS MÃOS



Encontro de duas mãos 
que procuram estrelas,
nas entranhas da noite!

Encontro de duas mãos


Juan Ramon Jimenez

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A COMPANHEIRA




A  lua parte com quem partiu e fica com quem ficou. E,
pacientemente, consoladoramente, aguarda os suicidas
no fundo do poço.

Mario Quintana
In: Sapato Florido