sexta-feira, 5 de abril de 2013

TARDE SOLAR



Quando eu partir, quando eu partir de novo
A alma e o corpo unidos,
Num último e derradeiro esforço de criação;
Quando eu partir...

Como se um outro ser nascesse
De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril,
E sem que o milagre se abrisse
As janelas da vida. . .

Então pertencer-me-ei.
Na minha solidão, as minhas lágrimas
Hão-de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
E eu serei o senhor da minha própria liberdade.

Nada ficará no lugar que eu ocupei.
O último adeus virá daquelas mãos abertas
Que hão-de abençoar um mundo renegado
No silêncio de uma noite em que um navio
Me levará para sempre.

Mas ali
Hei-de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei-de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre.

Ruy Cinatti 
In "Nós Não Somos deste Mundo"

quinta-feira, 4 de abril de 2013

CREPÚSCULO


-Estrelas não!
Pedaços de almas tristes
Que a noite acende pra enfeitar o céu.

Colombo de Sousa
In: Estágio



segunda-feira, 1 de abril de 2013

POETA



Venho do fundo das Eras
Quando o mundo mal nascia...
Sou tão antigo e tão novo
Como a luz de cada dia!  

Mário Quintana

quinta-feira, 28 de março de 2013

ESPANTO POR ESPANTO



a vida é isso?
essa espera de auroras
boreais
estar a sós com seus
pensamentos
falcões amestrados
em direção do passado
ao futuro
ao fundo duro
dos abismos?

O tempo não se mexe
penhasco imutável
no oceano das horas
nós é que nos vamos
estranhas marionetes
sem rumo

então a vida é isso
segundo por segundo
estrela por estrela
espanto por espanto

Roseana Murray
In Poesia Essencial.



quarta-feira, 27 de março de 2013

CREPÚSCULO DE ABRIL



Longa pincelada de cinábrio, no poente,
sublinha os nimbos gris.

A púrpura veludosa do amaranto
veste os jardins do outono.

Dorme a névoa dos vales.
No coração transido, a noite desce.

Helena Kolody

sábado, 23 de março de 2013

NO MEU JARDIM



No meu jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive...

E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!

O recuado Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino:

Este, de ser menino
Ao pé de ti...

Miguel Torga

sexta-feira, 22 de março de 2013

CREPÚSCULO DE OUTONO



O crepúsculo cai, manso como uma benção.
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito...
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
As feridas que a vida abriu em cada peito.


O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.


Os pinheiros porém viçam, e serão breve
Todo o verde que a vista espairecendo vejas,
Mais negros sobre a alvura unânime da neve,
Altos e espirituais como flechas de igrejas.


Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio
Do rio, e isso parece a voz da solidão.
E essa voz enche o vale...o horizonte purpúreo...
Consoladora como um divino perdão.


O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,
Flocos, que a luz do poente extática semelha
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.


A sombra casa os sons numa grave harmonia.
E tamanha esperança e uma tão grande paz
Avultam do clarão que cinge a serrania,
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.

Manuel Bandeira

quinta-feira, 21 de março de 2013

LUZ DA ALVORADA



Pátria, infancia, hora da manhã da vida
muitas vezes perdida e deslembrada:
tardia mensagem me vem de ti,
a reflorir do que mais fundo estava
soterrado no âmago de minha alma
- ó doce luz, fonte ressuscitada!

Entre o outrora e agora, a vida toda
que se havia por orgulhosa e rica,
não conta mais: volto a escutar, absorto,
o tão antigo sempre e sempre novo
cantar da fonte dos contos de fadas,
infantis cantinelas olvidadas.

Acima de tudo, com teu clarão
vais removendo o pó e a confusão
e o esforço da ambição irrealizada
- ó fonte límpida, ó luz da alvorada!

Hermann Hesse
In Andares 

EMILY DICKINSON


A manhã se dá a todos,
A noite, para alguns poucos;
A raros afortunados,
A luz da madrugada.

Emily Dickinson
In Poemas  Escolhidos

segunda-feira, 18 de março de 2013

ENCANTAMENTO



A tarde jogou os seus sete véus luminosos
sobre a montanha,
e ficou toda nua dançando
com sombras de crepúsculo
a escorrerem-lhe, suaves, pela pele dourada...
...e ficou toda nua dançando
na campina
ao som da harpa encantada do silêncio...

Tasso da Silveira,
in As Imagens Acesas:

sábado, 16 de março de 2013

HORA GRAVE



Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


Rainer Maria Rilke

quinta-feira, 14 de março de 2013

ESVAZIAMENTO



Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem
estrelas. 

Mario Quintana
In: Na volta da Esquina

sexta-feira, 8 de março de 2013

VISITA



Na escassa penumbra da tarde,
sonho.
Vêm me visitar as fadigas do dia,
os defuntos do ano, as lembranças da década,
como uma procissão dos mortos daquela aldeia
perdida lá no horizonte.

Este é o mesmo sol, impregnado de miragens
o mesmo céu que presenças ocultas dissimulam
o mesmo céu temido daqueles que tratam 
com os que se foram

Eis que a mim vêm os meus mortos.

Léopold Sédar Senghor

quarta-feira, 6 de março de 2013

ESVAZIAMENTO



Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem
estrelas. 

Mario Quintana
In: 'Na volta da Esquina'

sexta-feira, 1 de março de 2013

ADORMECENDO




Em catedrais gigantescas
um grito ecoa
. . . é a hora da paz!

. . . e o silencio é renuncia
ao dia que se desfaz.

O sol cansou-se de amar,
e a noite asilada em meu seio
vem bailar com o repousar.

Cerro as pálpebras,
. . . janelas frias. Revivo
Um féretro solene. Festivo.

Transponho fronteiras,
meu mundo não é bisonho
tem cores, de um viver risonho.

E vestida de flores
buscando esquivas primaveras
sob sóis amores.
Eu só tenho um desejo:
- o de nunca acordar!


Alviana Tzovenos

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

BELO BELO




Belo belo belo 
Tenho tudo quanto quero, 
Tenho o fogo de constelações extintas há milênios, 
E o risco brevíssimo — que foi? Passou — de tantas estrelas cadentes. 

A aurora apaga-se, 
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora. 

O dia vem, e dia a dentro 
Continuo a possuir o segredo grande da noite. 

Belo belo belo, 
Tenho tudo quanto quero. 

Não quero o êxtase nem os tormentos, 
Não quero o que a terra só dá com trabalho. 

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis: 
Os anjos não compreendem os homens. 

Não quero amar, 
Não quero ser amado. 
Não quero combater, 
Não quero ser soldado. 

— Quero a delicia de poder sentir as coisas mais simples. 

- Manuel Bandeira, 
em "Lira dos cinquent’anos",

AO CREPÚSCULO



O crepúsculo cai, tão manso e benfazejo 
Que me adoça o pesar de estar em terra estranha. 
E enquanto o ângelus abençoa o lugarejo, 
Eu penso em ti, apaziguado e sem desejo, 
Fitando no horizonte a linha da montanha. 

A montanha é tranqüila e forte, e grande e boa. 
Ela afaga o meu sonho. E alegra-me pensar 
(Tanto a saudade a um tempo acalenta e magoa!) 
Que tu, na doce paz da tarde que se escoa, 
Teces o mesmo sonho, ouvindo e vendo o mar. 

Embalada na voz do grande solitário, 
Tu mortificarás teu casto coração 
Na dor de revocar o noivado precário. 
(Ah, por que te confiei o meu desejo vário? 
Por que me desvendaste a tua sedução?) 

Se nos aparta o espaço, o tempo — esse nos liga. 
A lembrança é no amor a cadeia mais pura. 
Tu tens o grande Amigo e eu tenho a grande Amiga: 
O mar segredará tudo o quanto eu te diga, 
E a montanha, dir-me-á tua imensa ternura.

- Manuel Bandeira, 
em "A cinza das horas",

PAISAGEM NOTURNA



A sombra imensa, a noite infinita enche o vale . . .
E lá do fundo vem a voz
Humilde e lamentosa
Dos pássaros da treva. Em nós,
— Em noss'alma criminosa,
O pavor se insinua . . . 
Um carneiro bale.
Ouvem-se pios funerais.
Um como grande e doloroso arquejo
Corta a amplidão que a amplidão continua . . .
E cadentes, metálicos, pontuais,
Os tanoeiros do brejo,
— Os vigias da noite silenciosa,
Malham nos aguaçais.

Pouco a pouco, porém, a muralha de treva
Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça
Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleva
A sombria massa 
Das serranias.

O plenilúnio via romper ... Já da penumbra
Lentamente reslumbra
A paisagem de grandes árvores dormentes.
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias,
Tintas deliqüescentes
Mancham para o levante as nuvens langorosas.

Enfim, cheia, serena, pura,
Como uma hóstia de luz erguida no horizonte, 
Fazendo levantar a fronte 
Dos poetas e das almas amorosas,
Dissipando o temor nas consciências medrosas 
E frustrando a emboscada a espiar na noite escura,
— A Lua
Assoma à crista da montanha.
Em sua luz se banha
A solidão cheia de vozes que segredam . . .

Em voluptuoso espreguiçar de forma nua
As névoas enveredam 
No vale. São como alvas, longas charpas
Suspensas no ar ao longe das escarpas.
Lembram os rebanhos de carneiros 
Quando, 
Fugindo ao sol a pino,
Buscam oitões, adros hospitaleiros
E lá quedam tranqüilos ruminando . . . 
Assim a névoa azul paira sonhando . . .
As estrelas sorriem de escutar
As baladas atrozes
Dos sapos. 
                                           E o luar úmido . . . fino . . .
Amávico . . . tutelar . . .
Anima e transfigura a solidão cheia de vozes . . ."

- Manuel Bandeira


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

CANTATA VESPERAL



CERRAI-VOS, OLHOS, que é tarde, e longe,
E acabou-se a festa a festa do mundo:
Começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
Perdem-se; e vão fugindo em mármore
Cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
Nem há mais vozes que se entendam
Nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
Sem esperanças de endereços.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

domingo, 24 de fevereiro de 2013

POEMA DA TARDE



 A tarde move-se entre os galhos das minhas mãos.
Uma estrela aparece no fim do meu sangue,
Minha nuca recebeu o hálito fino de uma rosa branca.
Todas as formas servem-se mutuamente,
Umas em pé, outras se ajoelhando, outras sentadas,
Regando o coração e a cabeça do homem:

E dentre os primeiros véus surge Maria da Saudade
Que, sem querer, canta.


Murilo Mendes

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

POEMETO MATINAL



O ar da manhã beija a minha face
A minha alma beija o ar leve da manhã
e olha a paisagem longíngua da cidade
que branqueja alegremente na distância
e sorri humanamente
um sorriso branco no caiado das casas
que montam os flancos das colunas azuis
e espiam pelos olhos escancarados das janelas.

7 horas. Vai começar a função.
O despertador das sirenes fura liricamente
o silêncio doirado da manhã.
Parece que a vida acorda agora pela primeira vez
e esfrega os olhos deslumbradamente...

Meu Ford fordeja dentro da manhã
e sobe a rua velha do meu bairro,
arquejando, bufando, fumando gasolina.
Meu Ford a cabriolar nos buracos da rua descalça
é um cabrito todo preto a cabriolar, prodigioso.
O ar leve beija o radiador
e beija a minha face.

A beleza de todo o meu ser
na doirada névoa desta manhã!

Abgar Renault


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

TARDE



Esta é uma tarde completa:
mil cacos de solidão.
Eu conto
eu comparo
eu formo
eu junto.
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento fixar este instante,
este fragmento de tempo, dissecá-lo completamente.
Tenho os olhos bem abertos.
Sinto o áspero e louco toque
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco.

vasant abaji dahake
(índia, n. 1942)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

UM SORRISO



Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moitas. A umidade
aveludada de musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.

A viração do oceano acariciava o rosto
como incorpóreas mãos.Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto...

Ao fundo do mar batia a crista dos escolhos...
Depois o céu...e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos...

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...

Manuel Bandeira
In A Cinza das Horas

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CREPÚSCULO



Na hora em que o dia
não é mais dia
em que a noite não
é noite ainda
tudo é magia
e o céu parece
veludo furta cor
escorrendo
das mãos vazias.

Roseana Murray,
Poemas de céu

domingo, 10 de fevereiro de 2013

MIA COUTO


"Eis o que eu aprendi
nesses vales
onde se afundam os poentes:
afinal, tudo são luzes
e a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo,
nós somos suas breves incandescências."


Mia Couto,
 In: Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

NOITE ESCANDINAVA


Num instante,
o tecto se torna céu
e o escuro se torna leito.
A noite é escassa
para tanta saudade.

MIA COUTO,
in "Tradutor de chuvas"

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

MANHÃ NO CAMPO



Estendo os olhos pelo prado afora:
Verdura e flores é o que a vista alcança...
— Bendito oásis onde o olhar descansa
Quando saudades do Passado chora.

Escuto ao longe uma canção sonora.
Voz de mulher ou, antes, de criança
Entoa o hino branco da Esperança,
Hino das aves ao nascer da Aurora.

Por toda parte risos e fulgores
E a Natureza desbrochando em flores,
Iluminada pelo Sol risonho,

Recorda um'alma diluída em prece,
Um coração feliz que inda estremece
À luz sagrada do primeiro sonho!

Auta de Souza

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ENCONTRO DE DUAS MÃOS



Encontro de duas mãos 
que procuram estrelas,
nas entranhas da noite!

Encontro de duas mãos


Juan Ramon Jimenez

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A COMPANHEIRA




A  lua parte com quem partiu e fica com quem ficou. E,
pacientemente, consoladoramente, aguarda os suicidas
no fundo do poço.

Mario Quintana
In: Sapato Florido


domingo, 27 de janeiro de 2013

TEMPO DE ESQUECER...


Sabes que sou como um rio abandonado
no sedento leito do esquecimento,
e a tua vã lembrança tão unido
como a água ao seu céu refletido;

Sabes que sou como o tempo desfolhado
na mão final do que foi perdido
e, como um horizonte proibido,
me envolves o sonho vigilante;

Sabes que sou como o ar, destinado 
ao vôo de tuas aves, som ferido
surdido rouxinol e enamorado:

Sobre este coração crepuscular
e por turvas marés assaltado,
tornas-te nuvem voando para o esquecimento.

Eduardo Carranza
In Antologia Poética 

sábado, 26 de janeiro de 2013

OCASO



"É do ocaso que te quero falar:
- Da angústia que se esvai;
Com ela o sol.
Da hora em que o silêncio ainda é tão leve
que nem sequer a brisa o trai.

(…)
Quero falar-te do desassossego dos pássaros,
prenúncio da calma de mais uma noite,
e, da paz intensa, mas tão breve,
que gostava de partilhar contigo…"

Manuel Filipe

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

ENTRE A SOMBRA...



Entre a sombra e a noite há um submisso instante
de preparação.
Aberto espaço onde aves não cantam, 
imaculado, instantâneo refúgio.
Entre a sombra e a noite, único passo!

— E é serena e frágil a presença
dos nossos vultos passageiros
isolados na própria condição.

Onde nada se move, uma estrela suspensa.

E tão inutilmente despedaço o encanto,
e tão súbita me vem uma tristeza antiga,
que entre a sombra e a noite encontro o meu refúgio
— o intocável, único espaço.


Maria Alberta Menéres

PENUMBRAS



Bom dia, estrela pequenina,
Que, distraída de sua grandeza,
Soltou-se de suas alças
E caiu a meus pés!

Por que quer abandonar suas iluminâncias
E vir estar aqui comigo cavando minhas penumbras
Neste gineceu que inventei dentro de mim?

Quer, sei, trocar comigo experiências.
Mas, digo-lhe:
- Eu não tenho nenhuma experiência nova
Que seja digna de ser ofertada a você como troca.

É laudável este amor que me devota,
Ao querer trocar sua infinidade celeste 
Pela pequenez de meu espectro cinzento
E sua luminosidade incorpórea 
Pela minha rotina de sombra ofuscada. 

É que, mesmo tendo olhos azuis,
Tenho visto as coisas com olhos cinzas,
E você pequenina como é
quererá vê-las com olhos da cor de mel.

Não ando sendo boa companhia, minha pequenina estrela!
Deve voltar pra sua altura inatacável
Se não, vai morrer antes do tempo,
E não convém a uma estrela,
Pequenina como você,
Morrer precocemente!

Oswaldo Antonio Begiato



SUGESTÕES DO CREPÚSCULO


I e IV

Ao pôr do sol, pela tristeza
Da meia-luz crepuscular, 
Tem a toada de uma reza
A voz do mar 

Aumenta, alastra e desce pelas
Rampas dos morros, pouco a pouco,
O ermo de sombra, vago e oco,
Do céu sem sol e sem estrelas. 

[...]
No seu clamor esmorecido 
Vibra, indistinta e espiritual, 
Alguma coisa do gemido 
De um órgão numa catedral 

E pelas praias aonde descem 
Do firmamento - a sombra e a paz; 
E pelas várzeas que emudecem 
Com os derradeiros sabiás; 

Ouvem os ermos espantados 
Do mar contrito no clamor 
A confidência dos pecados 
Daquele eterno pecador 

Escutem bem... Quando entardece, 
Na meia-luz crepuscular 
Tem a toada de uma prece 
A voz tristíssima do mar..."

Vicente de Carvalho
Excertos de 'Sugestões do Crepúsculo)

MATINA



Noite! Cesse o teu ar imoto e quedo! 
Quero manhã! todos os sons que vazas! 
Fujam do ninho ao lépido segredo 
Todas as bulhas de reflantes asas. 

Sol! tu que a terra fecundando a abrasas. 
Desce da aurora em raio doce e a medo, 
Todas as luzes travessando o enredo 
Diáfano e leve das nevoentas gazas. 

Telas festivas deslumbrai-me a vista! 
Cantos alegres desferi-me em roda 
Em toda a luz, em todo o som que exista. 

E a natureza toda em harmonia, 
Iluminada a natureza toda, 
Surja gloriosa no raiar do dia. 

Emílio de Meneses

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

SONHOS NO CREPÚSCULO



Sonhos no crepúsculo,
Apenas sonhos encerrando o dia,
Retornando-o com tal desfecho,
Aos tons cinza, escurecidos,
Às coisas fundas e longínquas
Do território dos sonhos.

Sonhos, apenas sonhos no crepúsculo,
Apenas as rotas imagens lembradas
Dos tempos idos, quando o ocaso de cada dia
Escrevia em prantos as perdas da afeição.

Lágrimas e perdas e sonhos desfeitos
Talvez acolham teu coração
ao anoitecer.


Carl Sandburg
Tradução de Fernando Campanella



terça-feira, 22 de janeiro de 2013

OS RIOS



Magoados ao crepúsculo dormente,
Ora em rebojos galopantes, ora
Em desmaios de pena e de demora,
Rios, chorais amarguradamente.

Desejais regressar... Mas, leito em fora,
Correis... E misturais pela corrente
Um desejo e uma angústia, entre a nascente
De onde vindes, e a foz que vos devora.

Sofreis da pressa, e, a um tempo, da lembrança...
Pois no vosso clamor, que a sombra invade,
No vosso pranto, que no mar se lança,

Rios tristes! agita-se a ansiedade
De todos os que vivem de esperança,
De todos os que morrem de saudade...

Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

MANHÃ



Silenciosa manhã ! A minha estrada,
prevendo longe tanto céu desperto,
acorda a linha dúbia do deserto
e embarca na distância iluminada.

De entressonhar o teu fulgor tão perto,
recompõe-se partida badalada
e enganoso esplendor de tudo ou nada
ilude gasto calendário aberto.

O desejoso chão de águas chorosas,
este ar, a cor de dúvida das rosas
esperam com seu canto retardio

a chegada sem voz do teu minuto,
teu sorrir, tua luz, teu verde fruto
e o jamais do teu fúlgido navio.

Abgar Renault,
in Obra Poética 

domingo, 13 de janeiro de 2013

TEMPO DE ESQUECER



que sou como um rio abandonado
no sedento leito do esquecimento,
e a tua vã lembrança tão unido
como a água ao seu céu refletido;

Sabes que sou como o tempo desfolhado
na mão final do que foi perdido
e, como um horizonte proibido,
me envolves o sonho vigilante;

Sabes que sou como o ar, destinado
ao vôo de tuas aves, som ferido
surdido rouxinol e enamorado:

Sobre este coração crepuscular
e por turvas marés assaltado,
tornas-te nuvem voando para o esquecimento.

Eduardo Carranza
In Antologia Poética 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

BRUMAS



Nas brumas dos meus silêncios
Nascem visões encantadas,
Com ninfas, bruxas e fadas,
Sonhos de amor, sempre densos.
 
Nas brumas dos meus silêncios,
Onde os mistérios são nada,
Surgem paixões exaltadas,
Feitas desejos, imensos.
 
Nascem lembranças, eivadas
De sensações adiadas
E cheiros breves, intensos,
 
Sem ilusões ansiadas,
Em desespero, guardadas
Nas brumas dos meus silêncios.
 
Vitor Cintra 

HAICAI



No final do inverno
a tarde pinta de azul
o vento passeia...

Delores Pires 



RECONSTRUÇÃO



Um silencio
triste
na sombra
da noite.
O quarto
vazio.
Pessoas
distantes.
O sono
não vem.
À luz 
mortiça
construo
meu dia
onde
não há
o bulício
das ruas,
o palmilhar
das pessoas,
o riso
das crianças,
o fru-fru
das saias,
mas,
apenas,
o silencio
na sombra
da vida!

Delores Pires,
In: A Estrela e a Busca

PAUTA



Ao amanhecer
nas pautas do fio de luz
notas de andorinhas...

Delores Pires,
in O Livro dos haicais

DESESPERANÇA



Esta manhã tem a tristeza de um crepúsculo.
Como dói um pesar em cada pensamento!
Ah, que penosa lassidão em cada músculo...

O silêncio é tão largo, é tão longo, é tão lento
Que dá medo... O ar, parado, incomoda, angustia...
Dir-se-ia que anda no ar um mau pressentimento.

Assim deverá ser a natureza um dia,
Quando a vida acabar e, astro apagado, a Terra
Rodar sobre si mesma estéril e vazia.

O demônio sutil das nevroses enterra
A sua agulha de aço em meu crânio doído.
Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra...

Minha respiração se faz como um gemido.
Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.

Por onde alongue o meu olhar de moribundo,
Tudo a meus olhos toma um doloroso aspecto:
E erro assim repelido e estrangeiro no mundo.

Vejo nele a feição fria de um desafeto.
Temo a monotonia e apreendo a mudança.
Sinto que a minha vida é sem fim, sem objeto...

— Ah, como dói viver quando falta a esperança!

Manuel Bandeira

OS FILHOS SÃO FIGURAS ESTREMECIDAS



Os filhos são figuras estremecidas
e, quando dormem, a felicidade
cerra-lhes as pálpebras, toca-lhes
os lábios, ama-os sobre as camas.
É por mim que chamam quando temem
o eclipse e o temporal. Trazem nos cabelos
o aroma do leite e da festa das rosas.
Voam-me por entre os dedos, por entre
as malhas da rede de espuma
que lanço a seus pés. Reinam
num sítio de penumbra onde não 
me atrevo sequer a dizer quem sou.

José Jorge Letria,
in "Os Achados da Noite"



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

LUZ INTERIOR



Não de luz, mas de sombra são meus versos,
humildes desajustados,
como quem vem de longe e se arreceia
de inesperado encontro.
A sombra é luz filtrada esmaecida
homóloga à vida interior reflexa
manso fluir de águas profundas
numa réstea de musgo e pedras brancas.
Não é à plena luz do sol a pino
mas quando ele se quebra no horizonte
que o espírito perplexo se inclina
e vê na sombra o que a luz lhe esconde.

Miguel Reale

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

PAISAGEM


 
A névoa que desde manhã fechava
as portas todas ao rio foi-se embora.
A luz é fria: esta é agora
a minha terra, o outono.
Todas as terras são afinal as mesmas
folhas cobrindo a relva, às vezes
cintilando quando o sol rasga a névoa.  
 
No silêncio da terra


Eugénio de Andrade


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

MEDITAÇÃO



Às vezes, quando a noite vem caindo, 
Tranquilamente, sossegadamente, 
Encosto-me à janela e vou seguindo 
A curva melancólica do Poente. 

Não quero a luz acesa. Na penumbra, 
Pensa-se mais e pensa-se melhor. 
A luz magoa os olhos e deslumbra, 
E eu quero ver em mim, ó meu amor! 

Para fazer exame de consciência 
Quero silêncio, paz, recolhimento 
Pois só assim, durante a tua ausência, 
Consigo libertar o pensamento. 

Procuro então aniquilar em mim, 
A nefasta influência que domina 
Os meus nervos cansados; mas por fim, 
Reconheço que amar-te é minha sina. 

Longe de ti atrevo-me a pensar 
Nesse estranho rigor que me acorrenta: 
E tenho a sensação do alto mar, 
Numa noite selvagem de tormenta. 

Tens no olhar magias de profeta 
Que sabe ler no céu, no mar, nas brasas... 
Adivinhas... Serei a borboleta 
Que vendo a luz deixa queimar as asas. 

No entanto — vê lá tu!— Eu não lamento 
Esta vontade que se impõe à minha... 
Nem me revolto... cedo ao encantamento... 
— Escrava que não soube ser Rainha! 

Fernanda de Castro,
 in "Antemanhã"
 
 
 
 

domingo, 6 de janeiro de 2013

SUBIA A LUA, LEVE...



Um luar fluido e veludoso como um bálsamo
Ungia a noite voluptuosa e ardente.
A sua luz era tão branca que tornava o céu diáfano...
Subia a lua leve como o pensamento.

Eu dialogava com o silêncio... Uma toada rústica
De flautas e violões transportou-me à saudade.
E, abstrato de mim mesmo, eu te bendisse, ó música,
Que da tristeza de pensar me libertavas!


Da Costa e Silva
in: Poesias Completas 

CANÇÃO



Passa o vento de outono
derrubando a tarde:
caem torres douradas,
folhas azuis caem.
 
E passa o tempo louco
derrubando os sonhos:
caem torres de amor,
trêmulas folhas caem.
 
No vazio cai,
sem fim, meu coração.
Nada pode salvar-me.
Deus sabe que estou morto.
 
Sobre mim passa um rio
de esquecimento sem remédio.
Acima cruzam flores.
Sei que ninguém me ouve.


Eduardo Carranza,
In: Antologia Poética